Reserva da Jaqueira: um mergulho na cultura indígena pataxó

Além de belas praias, paisagens de tirar o fôlego, boa gastronomia, povo educado e diversão para todos os públicos, Porto Seguro oferece uma experiência inusitada aos visitantes mais curiosos: um passeio à aldeia indígena Reserva Pataxó da Jaqueira, a apenas 12 km do centro da cidade. Na comunidade, que fica às margens da rodovia que liga Porto Seguro a Santa Cruz Cabrália, em uma área de 825 hectares de terras demarcadas pelo Ibama, é possível conhecer cinco séculos de tradições e costumes desses indígenas.

A aldeia reúne 32 famílias, que se dedicam ao etnoturismo, uma importante fonte de renda para a comunidade. Elas recebem visitantes para contar suas histórias, mostrar seus hábitos e proporcionar uma verdadeira imersão na cultura indígena. Uma aula a céu aberto, que ensina como os nossos ancestrais se mantêm, apesar da evolução tecnológica e das transformações da sociedade.

Ao chegar na reserva, os visitantes são recebidos por um Pataxó, com vestes e adornos utilizados em seu dia a dia. Em seguida, o grupo é conduzido até o centro da reserva, após uma curta caminhada. Em um dos kijemes – cabanas feitas de taipa (paredes de barro) e coberta de piaçava (fibras de palmeira nativa), com bancos laterais, todos assistem a uma palestra feita por membros da tribo, como Suryasun Pataxó, de 21 anos.

O jovem conta histórias sobre o modo de vida de seu povo, e fala, por exemplo, de curiosidades como a preparação das refeições na cozinha comunitária da aldeia. Ele explica que um grupo de três ou quatro mulheres é responsável pela alimentação de todos. Entre outros assuntos, ele também comenta sobre o papel do cacique, que é eleito pela aldeia para representar a comunidade. Outro tema abordado são as exigências para namoros e casamentos na reserva.  O palestrante ressalta ainda que, assim como ele, muitos jovens nascidos ali conseguem estudar em universidades e depois retornam para contribuir com seus conhecimentos no desenvolvimento da comunidade. 

“Nosso principal objetivo é transmitir a cultura e a história Pataxó para as novas gerações e também para os nossos visitantes”, afirma Suryasun, que cursa Química na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).  Ele lembrou que, apesar dos indígenas terem passado por muitos processos históricos desde a colonização, hoje eles têm a garantia de um espaço para viver, cantar, dançar, plantar, pescar e fazer seus rituais, preservando, assim, sua identidade cultural.

Proteção do fogo

Depois da palestra, os grupos são convidados a conhecer o interior de uma choça - cabana de palha e madeira utilizada no passado como moradia provisória dos Pataxó, durante sua permanência nas florestas. As casas tinham tarimbas – camas feitas apenas de madeira e eram aquecidas com brasas ou fogueiras, que também ajudavam a espantar animais. Mais tarde, as choças foram substituídas por kijemes, com cobertura de sapê e, depois, de piaçava. Hoje, já se usam tarimbas com colchões e cobertores. 

O passeio, que dura três horas, inclui ainda uma caminhada por uma trilha na Mata Atlântica. O guia mostra os tipos de armadilhas usadas no passado para captura de pequenos animais como quatis, tatus, pacas e saruês. No retorno para o centro da aldeia, o grupo passa pela escola bilingue, que oferece desde a Educação Infantil até o Fundamental 1. Ali, professores indígenas com nível superior transmitem os costumes da aldeia e ensinam o idioma patxohã - língua materna desse povo, que vem sendo resgatada como forma de fortalecer sua cultura.

De volta ao núcleo, o grupo passa pelo kijeme onde reside o pajé da aldeia, considerado o chefe espiritual da tribo e responsável pela cura de doenças. Ali ele faz suas rezas, tem suas ervas medicinais para tratar enfermidades do corpo e do espírito e produz seus incensos.  Também é possível experimentar um cachimbo tradicional dos Pataxó, que tem a função de calmante. O fumo é preparado com a mistura das ervas alecrim, sálvia, camomila, além de duas gotas de menta.

Em outra área próxima, uma das cozinheiras locais prepara quitutes à base de mandioca para oferecer ao público, que também tem à sua disposição frutas como banana e melancia, chás e água fresca servida em moringas de barro. Com a ajuda dos monitores, os visitantes também podem fazer arremessos de arco e flecha. Em seguida, são convidados para degustar o peixe na folha de palmeira patioba no kijeme do mukusui (casa do peixe). É o óleo dessa folha, que se mistura com a água que sai do peixe enquanto assa, que dá um sabor especial ao alimento, temperado apenas com sal.

Por fim, os turistas podem conhecer o kijeme do artesanato. É ali que as famílias expõem os trabalhos que confeccionam nos finais de tardes ou no seu momento de folga. Cada uma tem seu espaço para vender os produtos. São tangas, cocares, brincos de sementes ou de penas, gamelas, colher de pau, colares, pulseiras, palitos de prender os cabelos, entre muitos outros objetos interessantes, com preços atraentes.


Rosani Abreu - Fotos: Pedro Côrtes

 

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