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Fisio

Maria Maia

Maria São Pedro Silva Maia nunca teve medo de trabalho. Nem de sair em busca do seu sonho de ganhar a vida cantando e encantando o público por onde passa. Depois de lapidar seu talento em diversos shows pela Bahia e o Brasil, há 17 anos, ela encontrou o seu porto seguro. Hoje, aos 48 anos, Maria Maia tem motivos de sobra para comemorar o respeito do público e o carinho dos inúmeros amigos que conquistou. Nessa entrevista ela relembra a infância em Milagres, sua cidade Natal, reconta sua trajetória como cantora e demonstra por que a praça do Relógio nunca mais foi a mesma, para ela nem para o público que tem o privilégio de apreciar sua arte e alegrar o coração.   

Quando começou a sua carreira musical?

Eu comecei a cantar com 18 anos na minha cidade natal, Milagres, com a banda Brilho Latente. Éramos sete músicos, meu irmão baterista, eu cantora e mais cinco amigos. Fiquei nela por dois anos, depois fui para Feira de Santana, em 86, onde cantei nas bandas Cordas e Vocais, Lamirê e outras da região. Em 88 fui para a Banda Trem de Luxo, em Pernambuco, sempre como cantora, onde gravei um vinil, só com músicas inéditas, inclusive uma de minha autoria. Esse vinil é a minha identidade musical, porque em 88 começou realmente a minha carreira profissional. Nós fazíamos Salvador, Feira de Santana, São Paulo, Rio de Janeiro. Depois dessa banda, fui pra banda Maike Faive, de Valença, por três anos. A partir daí, em 92 eu comecei a fazer carreira solo e fiquei até 94,  quando voltei para Camaçari, onde montei um quarteto – eu no teclado e voz, um sax, baixo e guitarra. Por causa de política, em 96 o espaço ficou pequeno pra mim em Camaçari e eu escolhi Porto Seguro para morar.

Por que você escolheu Porto Seguro?

Na verdade eu fiz uma roleta russa de cidades e fiquei entre Aracaju, Porto Seguro, Floripa e Araruama, no Rio de Janeiro. Aí visitei todos esses lugares e acabei optando por Porto Seguro, em 97. Aqui não havia muitos espaços para trabalhar e os que já existiam tinham seus músicos fixos. Dei algumas canjas na cidade e um dia eu ia subindo para a Passarela, com meu teclado na mão, passei na praça do Relógio e vi tudo escuro, muito feio. E me chamou a atenção, porque um lugar tão especial como esse, no Centro da cidade, de frente para o shopping, entrada e saída de turistas, estava tão abandonado. Só tinha uns quiosques na frente e a Tarifa atrás. Aí eu pedi para cantar num desses três bares da frente. E a pessoa me falou, “olha, se você quiser cantar de graça, pode cantar, porque aqui a gente não paga, não tem tradição de música ao vivo”. Aí eu pensei: “perder mais do que eu já perdi, eu não vou perder. No mínimo eu vou ganhar um pouco mais de conhecimento”.  Cantei no chão e aí lotou. Quem passou parou. O dono do bar gostou e falou: “vamos manter essa menina na casa”. E eu fiquei cantando muito tempo no chão, sem palco, ganhando 60 reais de cachê, por noite. Insisti, insisti e hoje já tem 17 anos que estou aqui. E continuo na praça do Relógio. A praça mudou, saiu o relógio grande, chegou o relógio pequeno que a Suíça e a Prefeitura colocaram. Até agradeço a eles pelo fato de fazer jus ao nome da praça e continuo aqui fazendo o meu trabalho.

Sua família é grande? Como foi a sua infância em Milagres?

Minha infância foi trabalho, sempre trabalho. Eu fui boia fria durante muito tempo, catava café, andava em pau de arara. Acordava duas e meia da manhã para ganhar o dinheiro digno. Éramos 12 irmãos e eu a mais velha das mulheres. Meu pai era pedreiro, minha mãe, dona de casa. A vida era muito difícil pra eles e eu achava que tinha que fazer alguma coisa para ajudar a família e a mim também. Com 12 anos eu já comprava minha roupa de São João e minha roupa de Natal e ainda ajudava meus irmãos. Eu vendia banana, o que fosse pra vender na rua eu não tinha vergonha, o trabalho pra mim sempre enobrece. Quando saí da minha casa, com 14 para 15 anos, eu fui trabalhar de babá em Salvador. Trabalhava dignamente e um ano depois eu já estava em Milagres, montando uma banda, porque lá em casa todo mundo canta, todo mundo toca.

Todo mundo é bamba ...

Todo mundo é bamba (risos). Verdade. E eu já ensaiava e cantava nessa banda Brilho Latente. Quando eu estava em Salvador fazendo trabalho doméstico eu entrei para um time de futebol de base do Bahia. Joguei lá por seis meses, até que quebrei o pé e como não podia mais trabalhar nem jogar bola e voltei para casa. Aí meu irmão, que era baterista precisava de alguém para ensaiar com ele em casa e eu fiquei sendo a cantora particular dele, para ele ensaiar as músicas. Um certo dia, as duas cantoras da Brilho Latente não foram ensaiar. E apareceu um evento de última hora. Aí meu irmão falou: “minha irmã pode cobrir”. Eles não acreditaram, porque sabiam que eu trabalhava, vendia laranja, menos cantava. Aí meu irmão falou: “olha, você vai, mas se você não fizer legal, esquece”. Cheguei lá e fiz a primeira música, “Lágrima de chuva”, de Kid Abelha, que estava no auge. Aí eles viram que eu era capaz, se adaptaram ao meu timbre de voz, repaginaram o repertório e dali eu não parei mais, nunca mais.

E como a sua família, do interior, encarava esse seu gosto pela música?

Eles me consideram como o troféu deles.  Meu pai é meu tudo. Minha mãe faleceu em 2008, de infarto fulminante e meu pai sempre me apoiou. Mesmo quando eu cantava em bandinhas pequenas ele dizia: “minha filha está cantando em tal banda, uma hora eu vou ouvir minha filha na rádio”. Meu pai tem uma parcela de culpa na minha opção de ser cantora. Quando eu acordava muito cedo para cuidar dos meus afazeres, ele acordava mais cedo ainda para fazer o café pra eu tomar. E aí ligava o rádio no programa do Zé Bétio, com muita música de raiz, que me despertava a vontade de ouvir e cantar.

Teve algum episódio que marcou sua carreira de cantora?

Um episódio que até hoje me lembro com carinho foi o primeiro show que eu fiz com a Banda Trem de Luxo, quando tínhamos acabado de gravar o vinil, a abertura de um show de Caubi Peixoto, numa casa chamada Voyage, em Salvador. Ele estava me ouvindo cantar do camarim, quando acabou o nosso show e ia começar o dele, no corredor ele me disse que eu tinha uma voz boa, muito afinada, mas que só faltava eu cantar com o útero. Na época eu não entendi o que ele quis dizer, mas hoje eu entendo, era pra eu cantar com emoção, com a alma. Isso me deu muita força. Nessa época a gente fazia um programa na extinta TV Itapoan e a abertura de shows para muitos artistas, Caubi, Joana, Fábio Júnior. Inclusive enquanto eu cantava na Voyage, Daniela Mercury fazia voz e violão numa casa ao lado, chamada Lado A. Hoje ela é Daniela Mercury e eu continuo sendo Maria Maia.

Quais são os principais desafios na carreira de um músico?

As pessoas usarem você para ganhar dinheiro, sem respeitar a sua qualidade profissional, nem o seu sentimento pela arte que você faz. Quando o artista sobe ao palco, ele não está pensando no dinheiro. Ele está pensando em agradar, mas ele também está precisando daquele dinheiro para viver dignamente. E muitos, como já aconteceu comigo, usam o seu talento para se beneficiar e depois deixam você a ver navios , com medo de prosseguir na arte. Mas eu digo que a arte é algo muito maior que as fronteiras impostas pelos atravessadores.

E qual a maior recompensa?

O aplauso do público ao final de cada música cantada.

Quais são as músicas mais pedidas pelo público?

Agora é uma tal de sofrência! A música mais pedida é “estou indo embora, agora”, essa é a música do momento. Mais uma vez a Bahia exportou um tipo de música e as pessoas chegam querendo ouvir. Mas elas gostam também de muita música boa de MPB. Yolanda é top de linha nos pedidos da noite. E o forró nordestino também, as pessoas dançam muito. Temos que fazê-las felizes naquele momento.

O que inspira mais, a alegria ou a tristeza?

Dor de cotovelo inspira muito. Inclusive agora eu estou fazendo uma música inédita com o Dai Soares para o meu novo CD, mais voltada para o povão, que vem nos pedindo uma música mais voltada para esse público.  São 19 músicas de diversos autores e mais essa canção inédita que vem para fechar essa coletânea Nº 7.

E quando nem você está tão feliz, como levar a boa energia para o público?

Aí é que eu canto muita música alegre para me tirar daquele estado. Se eu levar as pessoas para o meu estado, fica ruim, né? (risos)

Jogo Rápido

Signo: Câncer

Hobby: nadar e jogar sinuca

Uma música: Yolanda, de Pablo Milanez e Chico Buarque

Um cantor: Caetano, Gil, Chico, Marisa Monte, são tantos ...

Qual é a cor do som? É a cor do amor, da paz, do sorriso. Acho que é branca

Prato predileto: feijão, arroz, farinha e carne de panela

Uma bebida: uísque

Um lugar especial em Porto Seguro: minha casa

Um lugar especial fora de Porto Seguro: a casa dos meus pais

Uma pessoa especial: Mércia. Não está mais entre nós, me ajudou muito, muito

Uma personalidade da cidade: Carlinhos Bombordo. É meu amigo querido

A noite é: uma criança. É onde tudo começa e não sabemos no que vai dar

O dia é: para trabalhar duro para que a noite seja perfeita

Uma saudade: minha mãe

Um medo: ficar velha sozinha

Uma conquista: o respeito dos amigos e do público pelo meu trabalho

Um agradecimento: a Deus, todos os dias, por mais um dia e mais uma noite

Um sonho: cantar no Faustão

Uma qualidade: confiar nas pessoas

Um defeito: cabeça quente, impaciência

Quem é Maria Maia: uma pessoa tranquila, da paz, verdadeira, do bem

Estar no palco é: maravilhoso

Felicidade é: chegar em casa depois do trabalho e ser lambida pelos meus 8 cachorros

 

“Eu fui boia fria durante muito tempo, catava café, andava em pau de arara. Acordava duas e meia da manhã para ganhar o dinheiro digno.”

“O trabalho sempre enobrece. Com 12 anos eu já comprava minha roupa de São João e minha roupa de Natal e ainda ajudava meus irmãos.”

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