Prosperidade: virtude e pecado

Publicado da edição 424 do Jornal do Sol

Os tempos de crise são os mais favoráveis para “sonhar melhoras”. O “corona” vírus é o exemplo mais recente; mas também eleições, crise econômica, desastres ambientais e certas religiões estão adotando um discurso pelo menos ambíguo, mentiroso, para não dizer decididamente falso.

Teologia da prosperidade

Contrariando o que ensina sobre riqueza, em numerosas narrativas bíblicas, de forma mais contundente nos capítulos do Evangelho segundo Mateus cap. 6 e Lucas 12,22-34, existem diversos religiosos que esqueceram a frase-chave sobre o acúmulo de bens, que até a internet relata de forma bem exaustiva:

Quod superest date pauperibus (o que se encontra em cima, doem para os pobres). Tem biblistas divergindo se o “em cima” se refere à mesa ou a dispensa. Mas esta interpretação não deixa de afirmar que quem não reparte os bens com os mais necessitados não é evangélico.  O que dizer então de quem usa os privilégios da religião para acumular riquezas para própria pessoa ou família. Pior, quem usa ofertas para lavar dinheiro, sonegar impostos, favorecer a corrupção. Se questionados, chegam a mentir prometendo a prosperidade dos fieis na outra vida. O abuso de nomes sagrados, promessas espirituais, recompensas eternas cheiram mesmo a blasfêmia. São pecados gravíssimos.

Política da prosperidade

Todo mundo admite que a propaganda política, a prática de promessas sem fundamento, a apresentação de programas falsos são verdadeiras mentiras ridículas e absurdas. Mesmo assim existem muitas pessoas que gostam de ser enganadas e continuam votando em quem provou que não tem capacidade nem vontade de servir o povo, sim de se servir. O histórico de vida e atitudes dos candidatos, não estão sendo considerados. Por causa desta superficialidade, teremos sempre mais administrações corruptas. Valeria a pena analisar as crises econômica, ecológica, social, no cuidado com a educação, a saúde, constatando que o acúmulo das riquezas, a custo do empobrecimento da população pobre, aumenta cada vez mais enquanto o planeta terra se degrada de maneira irreversível. Que tal trocar ideias sobre o que significa mesmo prosperidade?

O caminho da prosperidade

Em primeiro lugar, próspero significa também simples, sincero, favorável, propício, ditoso, feliz. Para ser isto é preciso voltar a uma vida mais frugal. Não precisa se exibir tomando cerveja nos bares ou lugares com tantas pessoas, em praias super badaladas. Cerveja, comida, tira-gostos são gostosos também quando consumidos na própria casa, talvez com alguns parentes ou amigos, vizinhos. Seria bom ocupar o tempo de pandemia tendo uma hortinha no quintal, flores até em paredes ou quartos da casa, fazer e até inventar receitas novas na cozinha.  Fundamental é aceitar estas atividades não como castigo, falta de sorte, sim como uma nova maneira de viver, se relacionar, pois quando conseguirmos viver de forma natural, descobriremos que “as coisas mais simples são as mais belas”, como dizia São Francisco de Assis.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Os ensinamentos da pandemia

Publicado da edição 423 do Jornal do Sol

Não foi difícil constatar que um vírus fosse capaz de mudar tanto a nossa vida. E vai ser uma mudança que vai permanecer por muito tempo, exigindo cuidados. Agora, bem no ápice desta pandemia mundial, mais do que reclamar, se incomodar, ou alimentar disputas e inimizades para descobrir e punir os culpados, seria melhor praticar o que de positivo esta situação nos aconselha, para viver “em segurança”.

1°) Uso da mascarazinha

Quem tem problemas de visão, audição ou locomoção, não fica reclamando dos óculos, aparelhos ou muletas, mas usa estes aparelhos porque ajudam a vencer a enfermidade. As mascarazinhas nos previnem para não contaminar ou ser contaminados. Esquecer de usá-las ou dizer que não servem, incomodam, são frescura, é como esquecer os óculos. O prejuízo é só de quem esquece, pois corre o risco de atropelar ou ser atropelado.

2°) Evitar aglomerações

O costume e gosto de apreciar mais os centros comerciais, lojas e praias cheios, estão se tornando os maiores focos da pandemia, sobretudo porque nestes lugares tem pessoas inconscientes que não observam as medidas de segurança, a distância, as conversas não essenciais e com estranhos. Agora vale a pena valorizar os lugares mais calmos, geralmente mais simples, mas sem dúvida, menos contaminados.

3º) Valorizar a comida feita em casa. Tem gente que em casa não sabe o que fazer, inclusive não sabe se divertir a não ser assistindo TV ou outros programas às vezes enjoativos e inúteis. Que tal se inventar chefe de cozinha, testar pratos novos e diferentes? Existem centenas de livro de receitas, inclusive baratas, saudáveis e fáceis de preparar.

4º) Jogar em casa: baralho, xadrez, dama... Com esposa, filhos, vizinhos, parentes e amigos, sem excluir, de vez em quando, uma reza em comum, uma leitura bíblica. Na verdade, é muita falta de fantasia e criatividade não saber o que fazer na própria casa. Além de divertir, os passatempos lúdicos em casa são baratos e não nos expõem à contrair vírus.

5º) Sem esquecer que reformas na casa, limpezas profundas, mudanças de móveis, pinturas podem nos ajudar, não apenas a passar o tempo, e sim a poupar dinheiro.

6º) Fazer exercícios físicos, ginástica, inclusive correção de postura. Em todas estas alternativas de ocupar bem o tempo da quarentena ou quase quarentena é preciso acrescentar os recursos fundamentais: esperança, resiliência, bom humor, criatividade e paciência. Com estas receitas, a pandemia já está “vencida”.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Covid 19:  porque agora, porque tão mortal?

Publicado da edição 421 do Jornal do Sol

Não é fácil responder a estas perguntas. Entre as muitas tentativas, sobressai esta frase do escritor romano Plauto, reaproveitada mais tarde pelo filosofo inglês Thomas Hobbes: “Homo homini   lúpus”, que traduzido significa “o homem se tornou lobo do próprio homem”.

O corona vírus tornou-se pandêmico, pois encontrou na terra e na sociedade as condições propícias para se alastrar, e que podem ser resumidas na constatação de que terminaram as condições essenciais para a convivência humana, a falta de solidariedade entre as pessoas e o costume nefasto de explorar os recursos naturais. Vejamos alguns aspectos:

A competição - Está enraizada entre os povos a vontade de competir e não de colaborar. Exemplo eclatante as brigas que se travam entre USA e China que, agora não se restringem apenas ao comércio, à procura de recursos e descobertas naturais, chegando também na busca da vacina contra o Covid-19. Não seria mais produtiva a colaboração?

A economia - Derivada do grego, esta palavra significa “ordem na casa”. Pois bem, chegamos a confundir a palavra viver com a palavra negociar. Tudo deve responder a pergunta “quanto ganho com isto” e se não estiver satisfeito, cancelo tudo, com a vergonhosa realidade que os abastados se “divertem” em acumular riquezas e os pobres em caçar o que comer, e aqui a competição brutal, gerando os conflitos que conhecemos: corrupção, roubos, injustiças exploração do outros. Esquecendo que estes conflitos fragilizam todos e o vírus deita e rola sobre as pessoas fracas não só nos recursos econômicos, mas também nas condições psicológicas que as “malas” de dinheiro não curam.

A religião - Diga-se de antemão: não existe mais religião segundo o significado etimológico da palavra que significa “ligado duas vezes”. Cada um pode se sentir ligado a Deus e às pessoas, à natureza e à ciência, ao esporte e à meditação. O religioso é pessoas comprometido, não importa com o que ou a quem.

O que vemos por aí é que as pessoas são “desligadas”. Na religião, muitas crenças ou congregações, grupos, roubaram de Deus o poder de fazer milagres. Não estão mais ligadas a Deus, só o nomeiam, gritam seus atributos, escrevem o nome d’Ele em todo e qualquer lugar, mas não praticam o Seu ensinamento. Pregam a salvação no céu, pouco se ligando se o que Deus criou na terra está se perdendo. Nunca se viram tantas e tantas crenças, igrejas, capelinhas ou catedrais tão desligadas dos problemas sociais, humanos, políticos e sobretudo ambientais. Cultuam os deuses do céu e não cuidam da terra e é aqui que o vírus deita e rola.

As atitudes - Apesar da extensão e gravidade da doença que vai ceifar muitas vidas, tem ainda quem se atreva a aproveitar da aquisição dos aparelhos de saúde para desviar dinheiro. Verdadeiros vampiros! Tem gente “inventando” e ou sustentando brigas políticas, raciais, econômicas sem se preocupar de salvar vidas. A história vai dizer o número dos mortos; infelizmente não sabemos se poderá fazer o mesmo na identificação dos culpados.

Existe porém uma certeza: quem nesta pandemia consegue se salvar com o pouquíssimo que tem, saberá sobreviver; quem pensa que tudo voltará como antes e que o dinheiro será mais uma vez a salvação, poderá sofrer a surpresa, pois a vida do lobo também está em perigo!


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Pandemias e candidatos

Publicado da edição 422 do Jornal do Sol

Todos os médicos infectologistas, a tempo conheciam o coronavírus, mas não o tomaram a sério, não fizeram pesquisas, não procuraram a vacina, mesmo conhecendo a periculosidade. Quando começou a se espalhar naquela forma tão repentina e generalizada, começaram a se ocupar, mas era tarde demais: ficou confirmada uma verdadeira pandemia mundial. Quem quis ignorar a gravidade desta epidemia, apanhou feio, foi culpado pela morte de muitas pessoas, deveria ser punido, mas será bem difícil que isso possa acontecer. Entretanto os mais frágeis, idosos, desabrigados, as pessoas com imunidade fraca continuam morrendo.

Atitude dos irresponsáveis

Apesar da gravidade da situação, existem políticos, governantes, empresários que ainda insistem em menosprezar a gravidade da situação e muitas outras pessoas, sem responsabilidade nem consciência, seguem os maus exemplos deles, aumentando o perigo de contaminação, não apenas deles, mas dos outros. Pior de tudo quando se descobrem roubos de equipamento.

Semelhanças inacreditáveis

Estamos no ano das eleições municipais, pré-candidatos e candidatos começam a se movimentar, os partidos, ainda na surdina, estão a procura de apoiadores, programas, esbanjando promessas, projetos, e sobretudo, favores. Será adiada a data das eleições. Talvez surjam mais regras, orientações e disposições para garantir que o pleito se realize na maior transparência e legalidade formal. Mas o essencial pode ainda ser esquecido: trata-se da formação do eleitor. Fundamental é não fazer o erro que foi feito no combate ao Covid-19, procurar a vacina depois que a epidemia se espalhou; tentar tirar o prefeito/a empossados ou dizer que votará neles.

Nas eleições, conheça o candidato antes

Neste momento, no Brasil e em muito outros paises, temos governantes que literalmente “traíram as promessas”. Nas campanhas, prometiam acabar com a corrupção, promover a justiça e a democracia, acabar com as diferencias sociais, o desmatamento desenfreado, a falta de saneamento básico, melhorar a educação e a formação dos alunos... No governo fizeram o contrário. Como foi possível isto? Porque o eleitor não foi atrás do conhecimento do candidato, e sim, das promessas de campanha.

A vida do candidato é a melhor propaganda

A vida de um município, na maior parte dos casos, depende muito do prefeito porque é ele que administra. Quero dizer, depende dele e da Câmara dos Vereadores, a justa administração dos recursos. Mas depende do povo, a fiscalização dos eleitos, da participação deles na aprovação dos programas e projetos. Povo que não participa é povo explorado e muitas vezes a participação não é suficiente, pois o servidor corrupto, ganancioso, conhece mil e uma maneiras de ludibriar a fiscalização e governar com a corrupção. Única maneira para se prevenir é conhecer a fundo a vida do pré-candidato. Se tiver vida dúbia, atitudes gananciosas, sede de poder e não de serviço, deve ser barrado. Até a família e parentes devem ser tomados em consideração.

Ninguém consegue prever o estrago que o coronavírus vai fazer no mundo, mas todos sabemos muito bem o estrago que um prefeito corrupto faz  num município.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Carta do coronavírus

Publicado da edição 420 do Jornal do Sol

Pensei muito nestes dias, sobretudo para dar um sentido à situação absurda em que nos encontramos. Deve ter um sentido e eu imaginei o que o vírus diria numa carta, caso pudesse escrevê-la.  Ei-la:

“Pois bem, estou aqui e escrevo porque estou cansado de ver que vocês ficam regredindo, sem crescer. Cansado de ver como estão tratando o nosso planeta, os outros. Cansado das violências, das guerras, dos prejuízos, da inveja, a hipocrisia, o egoísmo causados do pouco tempo que vocês dedicam à família, aos filhos. Cansado dos equívocos da vossa vida que valoriza mais o supérfluo que o essencial, a roupa mais bela, o celular, o carro, as traições, a falta de informação, o pouco tempo para se comunicar.

Estou cansado das lamúrias, queixas, brigas, críticas contra os governantes, enquanto não fazem nada para melhorar. Estou cansado de ver pessoas que se ofendem e até matam por causa de um jogo de futebol. Talvez estou sendo duro demais, mas não me importo, sou apenas um vírus... ceifarei vidas, mas vocês têm que entender que é preciso mudar de rumo.

Quero vos deixar uma mensagem simples: falo dos absurdos limites em que se meteu a sociedade para que entendam que é preciso eliminá-los e se preocupar com a vida... Quis que vocês ficassem isolados nas vossas casas, separados dos filhos, dos pais, dos avós... Para que entendessem quanto é importante um abraço, um beijo, o contato humano, uma tarde com os amigos, um passeio no centro, na praia, num parque, o jantar com os amigos. Destas coisas deve repartir tudo de novo, sem fazer distinções.

Eu provei que as distâncias não existem, andei quilômetros e quilômetros e vocês nem perceberam. Eu estou de passagem, mas os ensinamentos e sentimentos que expressei devem durar para sempre. Vivam a vossa vida o mais simples possível, caminhem, descansem, façam exercícios. Façam o bem pois ele vai voltar com os juros.”

Danilo Calabrese

 

“Peguei esta ‘carta’ do celular de amigos italianos. Improvisei esta tradução livre, espero que o autor, que não conheço, não me denuncie pela quebra dos direitos autorais (rssss).  Acredito que esta reflexão faz parte dos direitos humanos que, embora esquecidos, devem voltar a vigorar o mais rápido possível, pois são a única garantia da sobrevivência humana na Terra.

A falta de máscaras, ventiladores e vacinas pode ser resolvida, mas os aumentos dos famintos e a justa revolta deles não será resolvida até que não seja debelada a injusta repartição dos bens.

A gente se queixa: ‘puxa, este vírus..., que estrago está fazendo’! Será que estes estragos custam menos ou mais do que as armas e as guerras? Ninguém pediu para nascer mas, uma vez que se encontra nesta terra, tem direito à vida digna. Mas existem mais de um bilhão de pessoas sem teto, sem a comida necessária, sem saúde...”


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

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