A vacina resolve? Mais ou menos!

Publicado da edição 427 do Jornal do Sol

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Sendo este fármaco a esperança de todo mundo, vale a pena refletir. Se a vacina nos ajuda a criar o conceito e a prática da prevenção contra todas as infecções, se livrar da ameaça de ser contaminado, será um grande alívio. Mas devem continuar os cuidados com a higiene, pessoal, social e, é preciso acrescentar, também ecológico-global, pois as catástrofes ambientais agora matam talvez mais do que as epidemias e o aumento das temperaturas, a diminuição das florestas, o enquinamento do ar e das águas devem ser considerado um perigo iminente e bem maior de qualquer epidemia.

Se a vacinação em massa renovar todos os exageros que tínhamos antes das proibições, tais como as baladas, as aglomerações carnavalescas, lotação de praias, shopping, os megaeventos, estádios lotados com as baldarias...Antes, depois, fora e dentro dos recintos, sem nenhuma prevenção, com abuso, propagação exagerada de álcool, drogas e relações de qualquer tipo, a vacina resolve em parte os problemas da sociedade.

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De verdade seria um absurdo se um vírus, que já matou milhões de pessoas, não tivesse a capacidade de nos ensinar algo de positivo para melhorar a vida. “Tem males que vem para o bem” diz um provérbio popular; só não aproveita quem não quer. A pandemia pode nos ensinar a viver uma vida mais simples e saudável, usar menos meios de transportes poluentes e valorizar a bike, as caminhadas; evitar as aglomerações seja de lazer como de comércio, privilegiando parques, praias menos afoladas.

Também podemos aprender o reuso das coisas, sem cair na tentação de “compra e joga fora”, assumir a tarefa de reaproveitar roupa usada, móveis fora da moda; reinventar meio de lazer, sem correr atrás dos grandes eventos, das promoções do turismo, sem cair nas armadilhas da propaganda enganosa que faz de tudo para te convencer a comprar determinado produto.

A pandemia limita o costume de comer fora. Ao invés de reclamar disto, eis a ocasião de se inventar cozinheiros, provar comidas caseiras, sobretudo reaproveitar as sobras. Vale a pena lembrar como Jesus, após ter saciado a fome de milhares de pessoas, mandou recolher o que tinha sobrado (Jo 6.12). O conselho e ordem “fiquem em casa” não deve ser interpretado com privação do direito de ir e vir, mas como compromisso de se perguntar “para onde eu vou”, “o que eu vou fazer”.

Ficou bem sintomático ver nas televisões ou redes sociais, tantas pessoas perambulando nas calçadas ou nas ruas com a cara de quem está apenas passeando; mas o pior quando faz isto sem usar a mascarinha, sem respeitar a distância. A cara destas pessoas inspira deboche, ar de superioridade ou muita ignorância e estupidez. Deveriam ser castigados, sobretudo aqueles políticos ou pessoas com poder público que desobedecem as normas emanadas pelas autoridades sanitárias. Estes têm a postura dos covardes, pois eles têm as condições, hospitais de primeira, remédios caros para saírem da doenças, enquanto o povo sequer consegue a UTI. A pandemia será útil quando ensinar a todos que sermos iguais é também termos os direitos iguais, sobretudo, quando se trata dos direitos à vida.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

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