Mulheres negras ocupam menos de 1% dos cargos de liderança no país

Chef Maiza Santos

 

 

 

 

 

 

Publicado na edição nº 414 do Jornal do Sol

Novembro é considerado o Mês da Consciência Negra. Sempre que ele chega, escutamos e lemos em inúmeros lugares questionamentos irônicos sobre o motivo da existência da data: “Pra quê?”; “Querem benefícios?”; “Se acham melhores”; “Se fazem de vítimas” e assim por diante.

Vamos começar com o seguinte dado: no grupo dos 10% mais pobres, os negros representam 75% das pessoas. Entre o 1% mais rico, somam apenas 17,8% dos integrantes. Esses números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE).

Na coluna mulheres empreendedoras deste mês, vamos afunilar e falar especificamente sobre a situação da mulher negra, que é ainda mais alarmante.

Apesar de representarmos 27% da população brasileira, nós, mulheres negras, ocupamos menos de 1% dos cargos de liderança, segundo a ONU Brasil. Esta pesquisa revela ainda que no país há 55,6 milhões de mulheres negras que recebem, em média, 40% do salário de um homem branco.

O estudo Panorama Mulher 2019 (realizado pela Talenses e Insper) revelou que das 415 empresas com cargo de presidente, 95% são homens ou mulheres brancas. Nas organizações com mulheres na presidência, não há nenhuma mulher negra ocupando a vice-presidência ou conselho e apenas 1% faz parte da diretoria.

A taxa de desemprego entre as mulheres negras é de 16,6%. O dobro da verificada entre os homens brancos (8,3%) e também maior do que entre as mulheres brancas (11%). Seus rendimentos são menos que a metade da renda do homem branco, homem negro e mulheres brancas, respectivamente, ainda segundo a Pnad.

O dia a dia

Temos que ser as mais educadas, bem vestidas. No trabalho, temos que provar sempre algo, o tempo todo. Engolir o choro, se esforçar duplamente, fazer sempre a mais. Recentemente, ouvi de clientes: “Você fez mesmo faculdade?” (Com cara de espanto); “Como assim você ainda não tem três ou quatro filhos? As meninas como você aqui já têm um monte”.

Escrevi um artigo esta semana contando as situações de racismo que já vivi, e recebi o seguinte relato de uma chef de cozinha Maiza Santos: “Li seu texto com muita emoção. Choro à toa, mas esse não foi o caso. Me vi nesse texto. Ser mulher negra já carrega em si um peso de força, coragem e resistência. Não é fácil. Ainda ontem passei por mais um desses racismos camuflados. Em minha profissão ele vem associado ao machismo. Eu me sinto andando em círculos sabe? Às vezes me pergunto quando isso vai parar”.

Ela continua: “Nós, mulheres negras, carregamos dentro de nós a força de nossas ancestrais que lutaram muito para que conseguíssemos usufruir de alguns direitos. A solidão que nós, mulheres negras, enfrentamos é cruel é dolorida. Nunca tinha visto meu cabelo natural. Sempre com química. Isso para mim (a transição capilar) foi uma descoberta incrível. Sinto um orgulho imenso de você. A admiração que sinto me inspira a querer lutar pelas injustiças ao meu redor e inspirar mulheres a lutarem pelo seu direito de ser mulher negra”.

Melhorias

Até pouco tempo, não nos víamos na TV. Hoje, estamos aumentando nossa participação nas mídias, mas ainda temos muito o que melhorar. As professoras falam mais sobre igualdade para as crianças e não toleram mais as brincadeiras que eu, por exemplo, ouvia quando era criança. Os racistas estão menos corajosos, porque sabem que ninguém mais fica calado.

Aos poucos as coisas estão melhorando. Representatividade é a palavra. E, se todos continuarmos a fazer nossa parte, veremos, muito em breve, muito mais mulheres empreendedoras negras por aí.


Kássia Luana é consultora de comunicação, imagem e vendas. Contatos fone (73) 99832-4856 (WhatsApp)

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