Juíza da Vara Crime diz que informação ajuda mulheres a denunciar agressões

As autoridades que tratam da violência contra a mulher afirmam que ela não tem classe social, nem cor, nem idade. E que, embora haja movimentação em torno do assunto, ainda há muito o que se fazer a respeito. Muitos casos ainda ocorrem sem que haja conhecimento dos órgãos de polícia, Justiça e cidadania.

De acordo com a juíza titular da 2ª Vara Crime de Porto Seguro, Dra. Michelle Menezes Quadros Patrício, a informação é fundamental para que a mulher denuncie o agressor. “A mulher precisa denunciar. E quanto mais informação ela tem sobre a quem recorrer e o caminho a seguir, mais segura ela se sente para ir à delegacia. Quando não sabe o que fazer, fica e apanha de novo no dia seguinte”, alerta. As denúncias devem ser feitas na Delegacia da Mulher ou pelo telefone 190.

A juíza afirma que, embora haja iniciativas muito importantes para proteger a mulher vítima de violência, é necessário criar formas de receber as denúncias de quem está mais distante da cidade, na zona rural, por exemplo. “A sociedade merece isso porque a gente precisa curar essa doença que ainda existe, que é a agressão silenciosa. Uma mulher agredida lá em Vale Verde vai ter o trabalho de se deslocar num ônibus até aqui para denunciar o companheiro que a está agredindo. É difícil”.  O ideal, segundo Dra. Michelle Quadros, seria promover o atendimento itinerante, mas a iniciativa demanda uma grande estrutura: “a gente precisaria de uma estrutura física e financeira de diversos órgãos, que hoje em dia não existe”.

“Quando o Estado se distancia da sociedade, os crimes acontecem com mais tranquilidade. A olhos nus, todo mundo vê a vizinha que apanha mas lá não tem polícia, não tem juiz, o fórum está longe”, afirma. Em muitos casos, a mulher permanece na relação porque o homem é quem sustenta a casa. E acaba presa naquele ciclo de violência porque não tem para onde ir e nem como denunciar. A juíza considera que muitas mulheres podem estar em cárcere privado porque o Estado não foi até elas. E que o machismo permanece ditando muitas regras.

“Percebo que violência contra a mulher é muito mais intensa, mais quantitativa do que a gente imaginava. Ainda é muito real, muito numerosa, infelizmente. E tem a ver com a cultura machista. É muito arraigada. A luz que traz a igualdade e o respeito ao sexo feminino, ou indo mais longe, ao gênero feminino, ainda não alcançou nem 10% do mundo.”

Ela acredita que embora externamente a sociedade vivencie a igualdade entre gêneros, isso não existe internamente. Também há o relacionamento abusivo de ambos os lados, o desrespeito que culmina na agressão, uma violência endêmica.  “Quando se leva para os relacionamentos afetivos essa agressividade perde-se o respeito pela integridade física de ambos”. O ser humano violento e as estruturas familiares em que se presencia violência, são fatores que, segundo a juíza, geram outros ambientes de violência. “Só tem um jeito de interromper esse ciclo: é iluminar este homem. Trazer para ele informações que alterem a base do pensamento dele sobre como ele vê a mulher. É uma mudança social muito mais ampla do que estamos falando”.

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