- Colaborador
- Cultura
- Acessos: 119
Travessias do teatro-vida no espetáculo em processo 'Como não matar nossos artistas no quintal de casa'

Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta quinta-feira, dia 16 de abril, a continuidade da Coluna Entre Atos, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do espetáculo 'Como não Matar Nossos Artistas no Quintal de Casa', por Keila Araújo - professora na UFSB e coordenadora do projeto de extensão Mútua - Grupo de leitoras(es) que escrevem literatura. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.
Travessias do teatro-vida no espetáculo em processo Como não matar nossos artistas no quintal de casa (A Patela Cia.)
O teatro está em cena. Na mostra “Como não matar nossos artistas no quintal de casa”, o teatro é trama, ação performática, personagem, corpo e espaço. Contudo, quando o teatro dobra o olhar sobre si mesmo, encontra o outro e o tempo da história é um tempo de muitas vozes. O território teatral, no espetáculo, configura memórias de quem atuou nesta região de Porto Seguro e de quem, de longe, ressoou por aqui. Não há fronteiras para o teatro. Não deveria haver.
O único ator em cena, Robson Vieira, chama o público para o palco. A plateia, em grande parte, era composta por estudantes das Artes do Corpo em Cena (UFSB), atores e atrizes da cidade.
O fato de o ator ser também dramaturgo e diretor intensifica os sentidos da metalinguagem. A voz no palco carrega em si múltiplas esferas da história do teatro: o drama encenado, a experimentação da ação performática, o improviso e a palhaçaria. Essas diversas camadas não estão exatamente sincronizadas, mas em movimento estelar, em constelação, quando diversas vertentes são ativadas no mesmo espaço. É esta voz do coletivo que mobiliza o público a estar verdadeiramente presente, porque, em tempos de incessantes estímulos do mundo virtual e das urgências das escalas exaustivas de trabalho, “a presença, mesmo que confirmada, pode não ser presença real”, diz o ator em seu convite. Então se faz necessário um pacto, o compromisso de estar entregue ao tempo-espaço e estar aberto à experiência, considerando o conceito de Jorge Larrosa, professor da Universidade de Barcelona, ensaísta e teórico da área de educação.
A mostra demonstra uma linguagem diretamente conectada aos principais movimentos de atualização da arte teatral ao materializar um espetáculo em processo de criação, que parte de texto fragmentado, heterogêneo, potencializado pela conexão dos recursos de projeção de imagens e sons interferindo na configuração do cenário e na experiência sensorial do corpo em cena. O espetáculo acessa essas estruturas de composição do teatro contemporâneo presentes nos conceitos de teatro performativo de Josette Féral e de teatro pós-dramático de Hans-Thies Lehmann que prevêem tais experimentações para explorar uma multiplicidade de sentidos e efeitos para além da dramatização de um texto de ações contínuas. Com esses recursos, a voz do ator-diretor-dramaturgo se multiplica no palco e impressiona ao assumir diversos papéis na leitura da biografia de figuras notáveis do teatro, na transmissão de notícias transmitidas via rádio, na interpretação de personagens e na referência às diversas vertentes do teatro.
No espetáculo em processo, a luz é lançada sobre o palco em espaços específicos, enquanto todo o restante do teatro fica no escuro. Os jogos de luz participam dos experimentos com a gravação prévia de textos informativos que pretendem verdades nunca antes anunciadas, pois as propostas transformadoras da arte são frequentemente deturpadas para induzir o público a uma interpretação distorcida da criação de artistas do palco. O espetáculo toma também uma importante dimensão de manifesto em defesa da produção de teatro, pelo fomento de programas permanentes das artes em cena e pela proteção de artistas no exercício do seu trabalho e nas atividades da sua vida em plenitude.
Em cena, há forte crítica ao didatismo imposto ao teatro contemporâneo e se faz a reivindicação por uma melhor distribuição de verbas frequentemente destinadas a eventos musicais de gêneros homogêneos em um sistema de exclusão que impede a difusão da arte autoral em sua diversidade, como representação direta das diversas culturas que habitam o território.
A palavra-tema é trabalho, sobre-vivência e, no palco, é feita a transmissão de áudio com oportunidades de trabalho fervilhando em sobreposição, mas o que vem em seguida são os mecanismos de apagamento e o “viver da arte” pode significar estar sujeito à escassez. Então, neste momento do espetáculo, é possível pensar no título “Como não matar nossos artistas no quintal de casa” no sentido das dificuldades que enfrentam os profissionais da cena, atores/atrizes, dramaturgos(as), diretores(as), produtores(as) e agentes - funções, na maioria das vezes, acumuladas sobre a mesma pessoa - para levar ao grande público a cultura da arte que é um direito. Um direito indiretamente negado por meio de um sistema que direciona e limita o repertório da população a vertentes sempre repetidas do entretenimento, o que se agrava ainda mais quando o público está exaurido em escalas de trabalho incessante, isoladas em bairros dormitórios com poucas opções de transporte público, e, assim, impedidas de conhecer a diversidade cultural do seu próprio entorno.
Para artistas, os anúncios mostram um mundo vasto, os percursos parecem estar abertos, mas a exposição é total. Quem protege o(a) artista? E (sobre)viver da arte nunca foi tão literal.
No palco, o tempo e o espaço são criações móveis e movediças, não há garantias. A escolha por poucos elementos de cenário enfatiza a proposta da mostra, o teatro está em processo de (re)criação, e contribui para que os sentidos sejam criados com o foco na penumbra, no movimento dos corpos, no entrecruzamento de vozes e nas imagens que fazem com que a lembrança se torne uma presença sensorial.
O espetáculo faz presente a força do teatro realizado nas terras do hemisfério sul, na América Latina, no Brasil, nas cidades de Minas Gerais e no Sul da Bahia. Assim, a história viva do teatro é a trama que apresenta trajetórias de quem trabalhou fortemente por esta vertente da arte. Assim, o legado de Ed Aquino é narrado. O ator, diretor, ativista cultural foi morador do bairro Parque Ecológico em Porto Seguro e atuou fortemente na formação de atores e na produção de peças de grande proporções na cidade, mas nunca recebeu reconhecimento compatível com seu legado. Aquino foi o primeiro artista da cidade a ter DRT (registro obrigatório para artistas na Delegacia Regional do Trabalho), documento que, ao mesmo tempo que abre portas, torna invisível quem não consegue vencer exigências burocráticas.
O espetáculo faz um necessário movimento de ampliar o reconhecimento da obra poética de Sosígenes Costa com a projeção da leitura do poema “O rio e o poeta”. O poeta nascido em Belmonte foi ganhador do Prêmio Jabuti (1959) e suas obras circularam entre outros grandes nomes da literatura nacional no século XX. Em 2013, ano de criação da UFSB - Universidade Federal do Sul da Bahia, o campus de Porto Seguro recebeu o nome Sosígenes Costa, em merecida homenagem ao poeta.
As projeções de sons e de imagens trazem para o presente vozes que soaram neste território, reconhecendo o pertencimento de histórias a uma terra, mas em trânsito de trocas constantes entre artistas e culturas vizinhas. Assim, o ator-dramaturgo-diretor em cena compartilha a autoria do texto que orienta o espetáculo nas direções do efeito polifônico, que parece não prever um resultado, pois prioriza a configuração de um espaço aberto. São vozes que todos reconhecem. São figuras históricas que dialogam com o espetáculo em processo e que, para além do seu legado no teatro e na literatura, precisam ser reverenciadas por sua humanidade e crença na vida em comunidade, no desejo de pisar o chão, encontrar pessoas diferentes e compartilhar o mesmo gosto pela vida-arte
Nos momentos finais do espetáculo em processo “Como não matar nossos artistas no quintal de casa”, o ator, cujo personagem é ele mesmo no campo coletivo do trabalhador da cena, muda de figurino no palco, e veste as roupas de palhaço que estavam estendidas no varal do quintal. O palco pode ter vários formatos, a terra do quintal, o barro da estrada e o coreto de uma praça, mas, infelizmente, pode também ser sufocado por rejeitos de minério ou ser invadido pelo ódio.
O ator em cena agora está no universo da palhaçaria e promove, por meio de imagens projetadas nos tecidos do varal, um encontro com a Palhaça Jujuba. Uma mulher venezuelana, artista latina, livre, dona de todas as suas faces e que foi vista como alvo, foi perseguida, torturada, violentada e morta em condições de barbárie. Por ser mulher e artista, artista e ativista, ativista e nômade em viagens de bicicleta. Julieta Inés Hernández Martínez estava no final de sua jornada pelos países da América do Sul e já estava perto da Venezuela, praticamente no quintal de casa, para termos de Amazônia, e faltava pouco para que pudesse reencontrar sua mãe.
A brutalidade está à espreita dos seres poéticos e é preciso haver proteção para os profissionais responsáveis pelo respiro e pelo tempo de fruição da inteligência.
Ao final do espetáculo, a notícia do assassinato da artista em Presidente Figueiredo - Amazonas recebe a legenda “Este texto foi criado integralmente por IA sem a interferência humana. Ou não.”, indo ao encontro das discussões sobre autoria e robotização do pensamento (não) crítico.
A mostra teatral “Como não matar nossos artistas no quintal de casa”, em composição multiforme, faz o público lembrar de que teatro se faz também no chão de terra, na mobilização das diversas gerações de artistas e no rastro de quem passa para o sempre. Pois, para citar o poeta das belezas ordinárias, Mário Quintana, “Eles passarão. Eu(nós), passarinho”. A legião de artistas segue se renovando e não permite a morte da memória, da honra e da vivência coletiva.







