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O real imaginado na peça Solar dos Martírios: a Lenda da Cova da Moça, da Cia. de Teatro Prosopopeia

Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta sexta-feira, dia 1 de maio, a continuidade da Coluna Teatro, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do espetáculo 'Solar dos Martírios - A Lenda da Cova da Moça', por Keila Araújo - professora na UFSB e coordenadora do projeto de extensão Mútua - Grupo de leitoras(es) que escrevem literatura e Jamile Alexandrino- estudante da Licenciatura em Linguagens e suas Tecnologias na UFSB. . A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.
O real imaginado na peça Solar dos Martírios: a Lenda da Cova da Moça, da Cia. de Teatro Prosopopeia
A ambientação da peça recompõe a cidade de Porto Seguro no período colonial escravocrata do Segundo Império no Brasil (1884) para contar a história do primeiro processo criminal para julgar feminicídio no Brasil. O êxito na materialização do contexto sócio-histórico no palco revela a qualidade do planejamento do dramaturgo e diretor André Simão e da diretora e atriz Mari Martins, que, nitidamente, se dedicaram à pesquisa dos registros históricos sobre o referido crime em publicações como o livro “Cova da Moça - História do Crime que Virou Lenda” (2024), de autoria da jornalista e historiadora Rose Marie Galvão (Editora Mondrongo). Também identifica-se a escuta da comunidade e mobilização de repertório para combinar, no espetáculo, diversas escolas da história do teatro para potencializar o deslocamento temporal e o mergulho no imaginário mítico da cidade, que mantém presente o forte alerta contra a violência cometida contra mulheres. Assim, quando a literatura e o teatro retomam fatos históricos, a distância do tempo, os percursos da memória e da linguagem recriam o acontecimento em perspectiva simbólica. Isso gera um “real” que é, ao mesmo tempo, reconhecível e transformado, conforme teóricos da ficção, em especial, Paul Ricoeur .
A equipe de produção da Cia. de Teatro Prosopopeia realizou um trabalho minucioso para integrar recursos de iluminação, cenografia, música, efeitos sonoros, figurinos, linguagem e atuação capaz de criar o efeito de deslocamento da percepção do público para o tempo histórico da história encenada.
A trama se desenvolve no contexto político-social do período imperial quando o papel social das mulheres pertencentes à classe nobre estava limitado à tutela masculina. Assim, a protagonista Josefina reúne em si as expectativas sociais para o feminino como a contenção das emoções, o refinamento da fragilidade dos gestos, o silenciamento de suas experiências, o descrédito a suas falas e total ausência de espaço de escuta para seus relatos e sua visão de mundo, condições discutidas por intelectuais como Simone de Beauvoir, Audre Lorde, Silvia Federici e bell hooks . Seu marido e tutor, o juiz Maximiano Lopes Chaves, reúne em si o pressuposto de detentor do poder de decidir sobre a vida das mulheres. Tal poder se amplia no contexto de cidade do interior do Brasil, onde ainda perdurava certa estrutura de capitania, garantindo grande influência política a personalidades como o juiz Maximiano.
Toda a história se passa no casarão do juiz e de Josefina, onde também residia Rosália, mulher negra escravizada, cuidadora afetuosa de Josefina e irmão do juiz, Otelo, nome do personagem shakespeariano que ativa a memória do público mobilizado a aproximar as histórias, bastante semelhantes. Em ambas as histórias, estão presentes os mecanismos de controle sobre a vida das mulheres, a sexualização de seus corpos, a vigilância e o ódio por trás das acusações caluniosas e da construção de falsas provas. Em ambas, a completa ausência de escuta aos seus argumentos de defesa e nenhum vestígio do princípio elementar de que as decisões sobre a própria vida pertencem à mulher.
Esse crime não se limita ao passado. Ele ecoa até os dias de hoje, revelando como estruturas de poder patriarcais continuam a sustentar a violência contra mulheres e a perpetuar o silenciamento de suas vozes. O conflito, portanto, não é apenas individual ou doméstico, mas social e estrutural: expõe a lógica de um sistema que naturaliza a dominação masculina e marginaliza a experiência feminina.
No drama em cena, Otelo (Otávio Lopes Chaves), alimenta inveja e ódio pelo irmão juiz que representa o sucesso da figura masculina da época, uma grande casa, um cargo de prestígio, uma esposa educada em família nobre e pessoas escravizadas na realização do trabalho que mantém os privilégios da família. Ressentido pelo próprio fracasso, Otelo vê em Josefina o meio para destruir os fundamentos da vida do irmão Maximiano. O vilão, então, escreve uma carta para Maximiano em que ironiza a vida perfeita do juiz e diz ter conquistado Josefina, revelando caluniosamente uma traição. Como prova, Otelo cita uma mancha que Josefina tinha no alto da coxa, da qual tomou conhecimento enquanto vigiava Josefina em um banho de rio, acompanhada da fiel cuidadora, Rosália. Acreditando na mentira e tomado pelo ódio, o juiz Maximiano fere Josefina gravemente e a tranca no porão da casa, sem acesso à nenhum cuidado e socorro.
Na construção de sentido, a composição da peça cria um contraste que evidencia a completa oposição entre a representação da rotina de Josefina, marcada por sua tranquilidade em casa, satisfeita com a condição de esposa dedicada e feliz em preparar uma honrosa recepção para o marido que estava em viagem à capital Salvador e, do outro lado, o ambiente sombrio da mente do juiz, contaminada pelo desejo de controle, ódio e vingança contra Josefina. Esse contraste é potencializado pelos recursos de som e iluminação quando as músicas clássicas amenas e a luz clara atuam na formação de um clima bucólico para momentos como o banho de rio de Josefina, os seus cuidados com a beleza dos cabelos e a escolha das roupas para receber o marido. Em um plano oposto, a escuridão e música de forte tensão tomam conta do palco nas cenas em que Otelo maquina contra Josefina para atingir Maximiano e nos tons de vermelho das cenas de forte covardia e violência.
A trama é um grande desafio para o elenco, que consegue corresponder individual e coletivamente e criar, com contundência, a interpretação deste texto que explora as emoções na tensão progressiva expressa por complexas conexões de falas, pela aflição do fluxo psicológico dos personagens e pela exigência de forte consciência corporal nos intensos conflitos coletivos das cenas mais graves.
Há grande destaque para a atuação na composição da personagem Josefina, tão presente no imaginário da população de Porto Seguro, que surge no palco como presença completa no resgate de sua história e no seu clamor por justiça. Há uma impressionante fluidez e coerência nos gestos da atriz, na entonação da voz seguindo as variações das emoções das cenas, nas expressões da face, do olhar, nas emoções expressas nos detalhes, nas minúcias do corpo nos diversos estágios da vida da personagem, desde a vida plena e feliz às aflições provocadas pelos ataques sofridos e ao desalento do flagelo. No momento de maior tensão, quando o Juiz Chaves amarra sua esposa e começa a torturá-la, a iluminação e o som transformaram a cena em uma experiência imersiva, o choro da personagem ecoa desde 1884 e o público é tomado por profundo pesar.
A personagem Rosália, interpretada pela atriz e diretora Mari Martins, é mediadora tanto na lógica interna da peça, em que Rosália é presença constante e referência confiável sempre em defesa da verdade e da justiça, quanto na lógica externa às cenas, quando desempenha a função de quebrar a quarta parede e aproximar o público da história encenada. Rosália, mulher negra bastante integrada à comunidade, é bastante próxima de Inaiá, jovem indígena guardiã e semeadora dos saberes tradicionais dos povos originários, e, juntas, representam a forte presença das tecnologias ancestrais nos processos de promoção do bem viver e também nos movimento de enfrentamento contra as violências.
Todos os personagens retomam habilidades da dança para fortalecer as cenas dos bailes na ambientação do imaginário nobre da vida das elites e também para intensificar sentimentos de contentamento dos personagens. A dança também é um recurso para momentos de comunicação entre as cenas e atos. Nessas transições, que talvez pudessem ser mais breves e fluidas, estão presentes figuras tradicionais da história do teatro, tanto nas tragédias shakespearianas quanto nos autos de Gil Vicente, como o parvo, que assume a função de narrador na síntese dos acontecimentos encenados e a dicotomia na personificação do bem e do mal em figuras femininas. Essas representações compõem uma espécie de coro, que não participa dos diálogos dos personagens, mas que atua na ampliação dos sentidos das cenas e no fortalecimento da conexão do público com o palco.
A maquiagem e o figurino impactam fortemente no efeito desses personagens que, em alguns momentos entre as cenas, também aparecem usando máscaras que remontam à diversas vertentes históricas do teatro, como as máscaras gregas e venezianas. Tais recursos da dramatização atuam na materialização sensorial do mistério fantasmagórico e envolve o imaginário popular em torno da história da Cova da Moça.
Acionando diversos recursos estéticos e repertório histórico, o espetáculo “Solar dos Martírios: a Lenda da Cova da Moça” leva o público a um mergulho profundo no imaginário popular, costura passado e presente, revelando memórias que insistem em permanecer vivas para despertar, na plateia, não apenas a curiosidade e a fruição da arte, mas também o encantamento diante da riqueza da cultura regional.






