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Festa sensorial do corpo na coletividade - espetáculo Bloco da Lua Vermelha, do Grupo SomaCorpo de Teatro

Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta sexta-feira, dia 12 de junho, a continuidade da Coluna Teatro, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do espetáculo Bloco da Lua Vermelha, do Grupo SomaCorpo, por Paola Muniz Santos Santana, estudante da Licenciatura interdisciplinar em Linguagens e suas Tecnologias - UFSB, integrante do Mútua; e de Keila Araújo, Professora da UFSB, coordenadora do Mútua - Grupo de Leitoras(es) que escrevem literatura. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.
Festa sensorial do corpo na coletividade - espetáculo Bloco da Lua Vermelha, do Grupo SomaCorpo de Teatro
Como condensar o Carnaval da Bahia em um espetáculo e poder levá-lo a qualquer lugar do mundo? A apresentação da peça teatral Bloco da Lua Vermelha (Grupo SomaCorpo de Teatro) trouxe uma vasta sensação de euforia que se prolongou para além do dia 27 de março, trazendo a experiência do carnaval de rua para dentro do teatro do Centro de Cultura de Porto Seguro (BA), reafirmando os impactos do Festival Porto EnCena.
A obra inicia-se com a celebração do carnaval, quando o elenco realizou apresentações de dança, canto e música, com atabaques e apitos, para demonstrar o entusiasmo característico da ocasião. A direção compôs um espetáculo em que a coletividade se torna protagonista e, além de quebrar a quarta parede em comunicação direta com o público, há forte presença das mobilizações próprias do teatro interativo, que inclui o público no tempo, espaço e trama da peça. A proposta da peça é instantaneamente aceita pelo público presente, que interage com atores ali, já no meio da plateia, participaram com palmas, cantaram alto, se tornaram parte do movimento que ocupou todos os espaços do Centro de Cultura.
Os jogos da iluminação estão em sincronia com os movimentos do corpo do elenco na expressão da dança, que vem de dentro, e fazem parte da composição que amplia toda a linguagem dos corpos em movimento interacional. Toda a ambientação foi preparada para a experiência sensorial das pessoas ali presentes, seja pelas referências trazidas a partir das religiões afro-brasileiras, seja pelo significado da lua vermelha, que vai mudando de fases e que vai subindo no alto do espaço conforme o enredo se estende.
Os personagens são envoltos em mistérios, credos, lendas e mitos. Temos, por exemplo, a personagem Cassandra, uma bruxa cartomante que tem o dom de falar com a lua; temos a apresentação da Rua Meia Nove, onde todo o enredo acontece, composta por dois personagens que representam a força ancestral de Exu e Pombagira (entidades ligadas às religiões afro-brasileiras); um homem que vira “lobo”; uma mãe preocupada; uma filha que parte daquela cidade, cujas oportunidades são escassas, e retorna inspirada pela saudade; uma policial ríspida, que muda de personalidade conforme a história se desenvolve; sem falar na personagem fofoqueira, que compõe grande parte do humor da peça; um vendedor ambulante, que transmite alegria; e, ainda, a imagem da mulher provedora, representada pela personagem Afrodite.
Todo esse conjunto de personas e referências forma a composição da peça, sendo possível relacionar essas personalidades à sociedade contemporânea. O espetáculo desenvolve-se fielmente com a fantasia e as crenças populares que estão bastante atuantes hoje, quando a resistência se faz re-existência, e as crenças dos povos tradicionais retomam forças graças ao crescente número de pessoas que estão experienciando uma retomada das tradições daquelas(es) que vieram antes, em uma busca pelos saberes e experiências da ancestralidade, que fez da festa, da carnavalização das dores, das lutas, o poder de fazer brotar a vitalidade da alegria como tecnologia de sobre-vivência.
Em certo estágio, a peça vai se afastando da euforia do bloco para um outro lado da vida que não precisaria ser experienciado, não fosse a política de matar e deixar morrer os grupos minorizados, conforme conceito de necropolítica de Achille Mbembe. Nessa direção, um dos pontos mais marcantes vem do ápice do processo de percepção que o público vai construindo ao longo da história, pois o espetáculo trabalha com a ficção presente nos personagens; entretanto, torna-se compreensível que a peça, em si, não é sobre carnaval, bruxas ou lobisomens, mas também está dedicada às violências que avançam para cercear os movimentos de liberdade da expressão da vitalidade desejante e criativa das mulheres, causados pela misoginia e pela miséria intelectual (Márcia Tiburi) que motiva a vertente violenta da masculinidade.
A peça é uma crítica extremamente importante, apresentada justamente no mês das mulheres, em um ano em que o índice de feminicídio denuncia uma urgência por justiça e por políticas públicas dedicadas ao respeito às diversidades de gênero e defesa da vida. Vale ressaltar que o espetáculo traz algumas falas densas, especialmente pelo personagem do lobo, o que pode causar forte impacto ao(à) espectador(a), principalmente em pessoas mais sensíveis ou que vivenciaram situações violentas relacionadas à história.
Mais uma vez, a direção e atuação do elenco ressignificam a atmosfera densa, transformando-a nas falas das personagens femininas, que compreendem aquele contexto e revertem em denúncia as situações de ameaça a suas vidas e emitem críticas que fomentam a mensagem principal transmitida pelo espetáculo.
Outro ponto que destaca o trabalho de produção de arte da direção e do elenco é a composição de dois finais para o espetáculo: um desfecho que se encerra em tragédia, denunciando as ocorrências do mundo real, infelizmente, e outro em que a alegria é poeticamente expressa pelos personagens, mostrando que certos finais podem ser diferentes. Precisamos que sejam diferentes.
Por fim, o espetáculo é altamente convidativo e mobiliza fortes reflexões sobre o tema proposto. Toda a composição do espaço foi pensada para prender a atenção da plateia, que se torna parte da obra, pois facilmente entram em estado de catarse causado por um misto de emoções, envolvidos na atmosfera criada. O enredo é transformador, as falas são urgentes em nosso contexto e a reflexão sobre o tema não se esgota, levando o público a querer assistir ao espetáculo novamente.




