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Espaços criativos para a infância - A caixinha de papelão, A Patela Cia. de Teatro

Coluna Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição
Nesta sexta-feira, dia 1 de maio, a continuidade da Coluna Teatro, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do espetáculo 'A Caixinha de Papelão', por Keila Araújo - professora na UFSB e coordenadora do projeto de extensão Mútua - Grupo de leitoras(es) que escrevem literatura; além de Maria Júlia de Moraes e Mariana Souza Campos, estudantes da Licenciatura Interdisciplinar em Linguagens da UFSB e integrantes do Mútua. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.
Espaços criativos para a infância - A caixinha de papelão, A Patela Cia. de Teatro
O público foi pego de surpresa: os atores, totalmente incorporados em seus personagens, desceram correndo pelas mesmas escadas por onde o público veio. E, desde o momento em que Maria de Lourdes grita para Loreto, já imersos na brincadeira, a atenção do público era toda deles.
A trama de “A caixinha de papelão” (A Patela Cia de Teatro) gira em torno da riqueza da imaginação na infância. De tudo se faz brinquedo. Toda curiosidade vira jogo. Os personagens estão, constantemente, envolvidos em jogos, brincadeiras, anedotas, pensando em desafios e vivendo descobertas. Entre as brincadeiras de todos os dias, surge um elemento simbólico importante, a caixinha de papelão, que desperta curiosidade ao longo da peça e só é aberta no final, depois de um longo e divertido jogo na disputa por quem iria abrir a misteriosa caixa primeiro.
A peça é um recorte, mas consegue representar muito bem toda a potência criativa das crianças quando têm tempo e espaço adequados para a imaginação na própria rotina. Toda a ambientação é composta para criar um ambiente analógico para a infância, valorizando atividades manuais como o desenho, dobraduras e a ressignificação de objetos do próprio lugar. O tapete colorido lembra os tapetes de retalho tão presentes nas memórias dos adultos e também lembra o quintal, o gramado, o espaço aberto para o brincar que toda criança reconhece ou deveria ter a oportunidade de reconhecer. A produção leva o público adulto a reconhecer a importância do ambiente lúdico e do tempo livre para que as crianças possam dar vazão à curiosidade e à criatividade. Já o público infantil poderá identificar-se, em algum momento, nas cenas em que os personagens fazem maçãs, chuchus e palitos se transformarem em animais de brinquedo, tal qual a personagem do livro Bem do seu tamanho, de Ana Maria Machado.
Assim, a peça inspira as famílias a criarem oportunidades para que as crianças experimentem o brincar como possibilidade de recriar o mundo, quando elas têm a liberdade para transformar objetos simples em experiências imaginativas, pois além de tempo de fruição da vida, a brincadeira é uma forma de experiência, de fluxo da memória e remodelam os processos de aprendizagem, lembrando as análises do filósofo Walter Benjamin em seu texto “Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação” (1930). E é muito provável que o público saia da peça concordando com Benjamin no entendimento de que “Nunca são os adultos que executam corretamente aquilo que imaginam ser brinquedos apropriados para crianças.”
No âmbito interno deste grande jogo em torno da caixa, os personagens se envolvem em brincadeiras com dobraduras, quando Maria de Lourdes e Loreto fazem origamis e, depois, trocam as criações entre si. O público adulto é levado a visualizar, talvez, um recorte das próprias brincadeiras de infância sem aparelhos de celular e internet, sem apelo nostálgico, mas quase um olhar fílmico das próprias memórias; enquanto as crianças presentes no teatro se divertem por ainda se reconhecerem nas brincadeiras da presença do corpo nos lugares reais. A extensa rede de brincadeiras envolve as pessoas presentes nos jogos de adoleta, nos efeitos de interação da música, das palmas e das expressões de linguagem facilmente identificáveis que contribuem para a integração do público, principalmente as crianças, às cenas do espetáculo. A direção de Robson Vieira consegue manter um ritmo dinâmico para a peça, prendendo a curiosidade do público para o desfecho, mas também envolvendo a todos no intenso fluxo criativo das brincadeiras e dos jogos criados pelos personagens.
Em determinado momento, os personagens deixam de ser atores de sua própria história e se tornam narradores também, quebram a quarta parede e decidem contar ao público a história da caixinha de papelão: todo o jogo de disputas girava em torno da caixinha de papelão que Loreto recebe do Seu Tomazinho da venda. Trata-se de um presente a Loreto que havia realizado corretamente a lição de matemática. Entretanto, Loreto não abre a caixa e corre para mostrá-la a Maria de Lourdes. Eles se dividem em narrar os acontecimentos desde a chegada da caixa, sem deixar de lado algumas peripécias, que, em diversos momentos, levam o público ao riso. Eles revezam a posse da caixinha, mas não conseguem abri-la, o tempo passa e então se encontram para tentar abri-la juntos, sem sucesso.
A interpretação de personagens que são crianças exige uma carga maior de espontaneidade da atriz Lorrana Amparo e do ator Fabrício Godinho, especialmente nas interações e nas mudanças de papéis dentro da própria peça, o que se confirma com tanta fluidez que o público se vê naquele ambiente mágico do brincar que toma o tempo sem que se perceba a sua passagem. Até que a mãe chame para o banho e para o jantar, até que as pessoas se percebam adultas e já distantes daquela realidade criativa, para a qual o teatro cria um portal de encontro com o que ainda permanece: o desejo pela fruição do tempo e pelo deleite da vida.
No fim de tudo, todas as pessoas presentes no teatro são levadas a compreender que o que a caixinha guardava era menos importante do que o próprio mistério que ela representava.




