Da infância sofrida a Maria Festeira

Homenagem póstuma: Maria Boneca

O Jornal do Sol reproduz a entrevista concedida à editora Hilda Rodrigues e publicada na Edição nº 18, pág 12, de 10/03/1993. Maria Boneca faleceu no dia 09/09/2018, aos 82 anos. A infância sofrida, sem mãe e sem escola, não tirou o brilho e o entusiasmo de Maria Boneca. Ao longo dos anos, mesmo quando a idade avançava, não media esforços para colocar o seu bloco na rua. Maria Pinto Bonfim nasceu em Porto Seguro e cresceu à frente da organização das principais festas da cidade. Fossem elas sagradas ou profanas, o que importava é fazer bonito: decoração, fantasias, orquestra, cantigas e os comes e bebes. Detalhes que ela planejava e acompanhava com carinho e dedicação. “Tudo para ver a alegria do povo na rua”.

Há quando tempo a senhora tem botado o bloco na rua?

Tem tanto tempo, que pra dizer a verdade, já até perdi as contas. A cada ano o “Fantástico” sai com uma cara diferente: caveira, baiana, cigana, palhaço, pierrô, tudo. Dependendo da marcha é que vem a fantasia. Esse bloco “Lá vem elas” era “o Fantástico”. Depois eu entreguei para a Cleinha, a turma da “Marisqueira”. Depois eles passaram para as meninas da Raidália e elas criaram o “Lá Vem Elas”.

No Carnaval, o que te dá mais alegria?

Sei lá, eu fico doente, eu choro, fico sem comer, me aborreço com a orquestra. Esse ano mesmo, nunca que eu conseguia consertar o estandarte. No final dá tudo certo e eu sinto o maior prazer de ver aquela alegria na rua, o povo todo acompanhando.

Como foi o Carnaval desse ano?

Esse ano a gente teve o maior problema com o trânsito. Por causa dos carros, demoramos a conseguir fazer uma paradinha para os músicos descansarem. Imagine, instrumento de sopro, a canseira que não dá. Na Passarela, foi uma dificuldade para a gente conseguir entrar. Falta mais apoio da prefeitura. O prefeito ajudou a gente com dinheiro, mas para o ano deveria comparecer, mandar limpar a praça e botar um enfeite. É um jeito da gente reunir a turma, fazer uma disputa, um concurso, sei lá, como é feito lá fora, aqueles aplausos todos. Aqui a gente sai endoidado, gasta um dinheiro, pra nada.

Além do Carnaval, a senhora faz também outras festas ...

Cada vez tá ficando mais difícil fazer as festas, pois é tudo muito caro. Mas tem o Baile das Princesas; no Natal, as pastorinhas de chapéu, avental e cestinhas de flores (falava com entusiasmo, enquanto ia cantarolando as cantigas). Depois vem o Terno de Reis, o Terno das Velhas, O Bumba-meu-Boi, o Rancho ... Perdi minha mãe muito cedo, mas nunca deixei de participar das festas.

E o São João?

É o Rancho, quando a gente escolhe um grupo e vai até o prefeito buscar o dinheiro para a orquestra. Enfeitamos uma carroça e aí ficamos prontinhos, os noivos e todas aquelas senhoras vestidas de caipiras. Aí cantamos pelas ruas “salve lindo São João ...” (E cantou várias cantigas, com alegria e entusiasmo). A gente então se reúne e faz os caldeirões de caruru, canjica, amendoim, quentão. Depois da cerimônia de casamento vêm os comes e bebes. Os próprios participantes vão se servindo. E quando não tem festa nenhuma se aproximando, eu invento uma, faço um quebra-pote. Só me falta mesmo a leitura.

A senhora chegou a entrar para a escola?

Tenho que ser franca, não sei escrever nem meu nome. Cresci muito desgostosa, sem mãe, sem escola. A gente, quando tem um bom começo, até anima a estudar mais. Acho que até mereço um castigo, mas eu já não tinha muito gosto, ainda não arranjei quem me incentivasse! O que me pega mesmo é isso. Sabe porque me declarei a você? Porque às vezes surge alguma coisa e vocês me chamam para ler, aí já sabem!

Porque o apelido de Maria Boneca?

Dizem os velhos, que quando mais nova eu era uma bonequinha, bonitinha. Vem gente de longe, e é só Maria Boneca. Hoje, como existe tanta boneca danada de feia! (risos)

A senhora tem vontade de sair de Porto Seguro?

Sempre que aparece uma excursão e tenho algum dinheiro, aproveito para dar meus passeios. Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, tudo eu já conheço. Eu nasci e me criei nessa mesma casa e não quero mais sair daqui [rua 13 de Maio]. Essa raça toda aí eu conheço. Tenho uma família muito grande. É tia, irmã, sobrinha, tudo no mesmo quarteirão. Nós que nascemos aqui não temos mais aquela liberdade e tranquilidade. Uns vêm na paz, mas outros trazem problemas. E a gente acaba sofrendo com a carestia danada. Mas assim mesmo, aqui é o meu lugar de viver.

A senhora tem medo de assombração?

Pelo amor de Deus, tenho um medo danado! Tem gente que diz: - quem morre não aparece. Quem quiser que acredite nisso, menos eu. Dizem que o medo a gente faz do tamanho que quer. Quem não acredita é porque nunca sentiu, mas eu sei que existe.

Quais são os seus planos para o futuro?

Eu quero continuar fazendo minhas festas e quando surgir uma viagenzinha, e eu tiver meus trocadinhos, tô indo. Todo mundo me encontra na rua e me chama de Maria Festeira.  A idade vem chegando e tem gente que diz que está na hora de me aposentar, mas que nada! De uma hora pra outra a gente fecha o paletó. Desde menina que eu aproveito. Também, sou eu que desencalho muitas velhas. Elas vêm de longe para ensaiar todos os dias. Eu boto essas “cominhas” todas para brincar. Só espero que o prefeito dê um chega pra lá nesses empresários fortes pra eles soltarem mais dinheiro para as bandas da terra.