
Personagens conhecidos de Porto Seguro, especialmente pelos nativos e moradores mais antigos, vão contar a sua história e evidenciar a diversidade cultural que existe na cidade, a partir do projeto @portoseguroalemdodescobrimento. Divulgado através do Facebook e Instagran, o primeiro documentário traz uma entrevista com D. Mariinha Laje, parteira e rezadeira, que sempre fez da sua reza uma ponte para levar a cura e o conforto espiritual para muita gente de dentro e de fora da cidade.
“A gente possui um conjunto de bens culturais, manifestações, saberes, ofícios e celebrações, que são pouco reconhecidos pela população local e pouco promovidos pelas políticas públicas. É importante reafirmamos que a cidade não se restringe ao episódio do Descobrimento. Ela tem mais história, mais memória, mais patrimônio que isso”, afirma o historiador e professor universitário, Francisco Cancela, que dirige o documentário juntamente com Reinan Ribeiro.
“Além das postagens, resolvemos fazer registros audiovisuais com o que estamos chamando de patrimônio vivo. Então, começamos a fazer entrevistas com pessoas que traduzem um pouco da história cultural da cidade”, conta o professor. Além de D. Mariinha, já foi feita uma entrevista anterior com Maria Boneca, que será reeditada e outras estão programadas com Chapoca, da Filarmônica 2 de Julho e Chabrô. “Nossa proposta é fazer uma espécie de enciclopédia da cultura de Porto Seguro com personagens, que, através do seu modo de vida, retratam a história da nossa cidade”.
Santo forte
No caso de D. Mariinha, segundo ele, houve um contraponto do destino, que atrasou o lançamento do documentário. “Nós fizemos a gravação no mês de maio de 2019 e ela morreu no mês de julho. No mesmo mês em que a gente faria o lançamento, ela partiu e tivemos que reeditar o final”, conta. Cancela lembra que quando foram feitas as gravações D.Mariinha já estava doente. “Apesar de a família não ter contado, eu acho que por conta da espiritualidade que ela possuía, ela sabia que estava na reta final da sua trajetória e aceitou fazer as entrevistas”.

Uma das referências exaltadas pela rezadeira em seu depoimento no vídeo é a influência do Pai Umbilino na sua iniciação espiritual. “Pai Umbilino é uma pessoa muito importante para as religiões de matriz africana na nossa região”, constata o professor. Segundo ele, boa parte dos terreiros mais antigos teve no pai Umbilino o seu centro de formação. “Essa referência à negritude e à presença das tradições africanas na nossa cidade é muito negada. E um caso como esse de D. Mariinha comprova que isso na verdade era silenciado. Pessoas de várias regiões se deslocavam até a casa dele para fazer tratamento. Ele merece reconhecimento como um pai de santo, um mestre, um sacerdote espiritual”, argumenta.
Francisco Cancela observa que, do ponto de vista religioso, D. Mariinha consegue distinguir o momento em que ela tem que se apresentar como católica - membro da Irmandade Sagrado Coração de Jesus - e o momento em que ela se apresenta com seus guias e suas práticas curativas. “E isso é fantástico”, salienta. Para as filmagens, D. Mariinha permitiu a entrada dos diretores no Congá, seu quartinho religioso. “Em um momento ela falou: ‘meu filho eu vou fazer 90 anos e não tenho nada para esconder’. A a ideia era mesmo deixar que ela falasse. E foi bastante rico” resume.
O resultado pode ser comprovado através do documentário “A reza é de Deus – Dona da Fé, Dona das Palavras”, através do link: https://www.facebook.com/portoseguroalemdodescobrimento/videos/535552847332027
Mariinha Rezadeira, dona da fé e das palavras
Poucos dias antes de morrer, D. Mariinha Rezadeira, abriu as portas do seu Congá para receber os diretores Francisco Cancela e Reinan Ribeiro. Ali no seu quartinho religioso, cheio de imagens de santos, onde ela costumava oferecer conforto físico e espiritual para as inúmeras pessoas que a procuravam, D. Mariinha falou do seu ofício e sua fé. O resultado está no documentário “A reza é de Deus – Dona da Fé, Dona das Palavras”.
Mariinha começa o vídeo recordando sua iniciação espiritual. “Quando vim para o mundo, eu não sabia nada e sabia tudo. Aí eu caí doente, um negócio me pegou e levei três dias sem saber se eu tinha casa, se tinha filhos ou não tinha. Aí me pegaram e levaram lá na Sepa, em uma fazenda de cacau, pra lá de Belmonte. Quando eu cheguei, amarrada, Pai Umbilino estava no cacau. Quando chegou, ele me deitou em um couro de burro e me disse: ‘quem é médium não pode correr, agarra aqui na minha mão’”.
Quando acordou, ela conta que começou o tratamento. “Fiz o fechamento de corpo aonde ele disse: ‘a senhora vai ter uma velha nagô, vai ser parteira e vai salvar muitas vidas”. No documentário, a rezadeira reverencia seu grande mestre. “Pai Umbilino era um homem sensacional, ainda ontem sonhei com ele. Ele dizia que sempre estaria ao meu lado. ‘Você veio para servir e não para ser servida. Você já veio iluminada para isso. Veio para cumprir uma missão na terra’. E eu estou cumprindo até hoje.”
Luz que cura
Mariinha conta que cada vez mais pessoas passaram a buscar sua reza. “Chegava gente de Minas e de todos os lugares. Até de São Paulo e de Brasília já veio gente aqui para eu rezar. Todo mundo diz que quando eu rezo, já sai bom, já tira aquele peso das costas. Porque eu tenho fé em Deus, eu sigo a luz e sem a luz nós não somos nada”, ensina. Uma chama que ela cultiva também através da velas que mantém acesas, a noite inteira. “As pessoas chegam aqui para eu rezar e às vezes elas querem dar dinheiro e eu digo: dê um pacote de velas, não quero dinheiro.”
Em seu cantinho abençoado, D. Mariinha trazia alívio para todos os males. “Os que eu mais rezava sempre era gente com olhado, espinhela caída, nervo torcido, dor de cabeça. Era parto, uma dor aqui, uma dor na perna, um pé que destroncava. Eu rezo todo mundo, não aprendi com ninguém, é tudo através desses guias maravilhosos que Deus me deu”, explica. Para transmitir as bênçãos, usava ramos das plantas. “Eu gosto de arruda, aroeira, manjericão, peão roxo, fredegoso, vassourinha de Santa Maria ...”
Mariinha revela que para tirar uma folha de planta, sempre pedia licença. “Tudo tem um dono, né? Aí eu digo, ô meu Deus, em nome de Jesus, eu sei que é vivo, mas tenho que tirar as folhas pra rezar um ser humano, dá-me licença, meu Deus. São as folhas verdes que Jesus deixou para os nossos banhos, para a nossa saúde, para defender um corpo”. E derramavam-se bênçãos e orações, que ela faz questão de reproduzir no vídeo. “Eu vim para cumprir ordem de Deus”. Quem conheceu não tem dúvidas disso.