
Ele também falou sobre uso de terras para mineração, necessidade de suprimento das aldeias e manutenção do trabalho diante de restrições impostas por decretos estaduais
O Cacique Zeca Pataxó, de Coroa Vermelha, esteve na sede da Organização Nacional das Nações Unidades (ONU) em Genebra na Suíça, dia 12 de março, para apresentar demandas do povo indígena de vários estados brasileiros, em especial, da Bahia. Durante a reunião, ele teve cerca de meia hora para seu discurso, onde defendeu as terras indígenas e a necessidade de maior atendimento às famílias na prevenção e tratamento da Covid-19.
O cacique, que é coordenador regional do Movimento Indígena da Bahia/MIBA afirma que representou 900 mil indígenas, organizados em 305 etnias, de 274 línguas distintas em todo o Brasil. “A gente só procura a ONU quando as coisas não estão dando certo. Em relação à saúde indígena, nosso povo tem passado uma situação delicada no Brasil inteiro e mesmo tendo a vacina, está deixando a desejar”, relata. O cacique afirmou que não tem barreiras sanitárias nas aldeias, nem álcool em gel e máscaras, e que “as vacinas não são suficientes, e não está tendo alimentação disponível para os indígenas nesse momento crítico.
O cacique fez um breve relato da viagem, que incluiu sua passagem por Brasília. “Estive reunido na presidência da Funai, para tratar de um assunto de minha aldeia Coroa Vermelha, sobre os comerciantes indígenas que trabalham com artesanato, que gera de 80 a 90% dos empregos dentro da nossa comunidade. Com as restrições nessa pandemia, teve uma perda enorme para esse povo”, diz. Ele afirma que a Funai está preparando um documento para encaminhar aos municípios de Porto Seguro e Cabrália, para “ajudar no controle da pandemia, mas com emprego e renda da nossa comunidade”.
Rastro de destruição
Segundo o cacique, o atual Projeto de Lei 191, do Governo Federal, em tramitação, libera a mineração e o arrendamento de terras indígenas em todo o território nacional. “A integridade de nossas terras indígenas estão ameaçadas e serão devastadas, pois sabemos que a extração de ouro na Amazônia e o arrendamento de terras indígenas para o agronegócio deixam rastros de destruição social e ambiental, como a contaminação, o desmatamento, a violência contra os povos indígenas, o trabalho escravo e a prostituição”, lamenta.
Ele afirma não acreditar na defesa do Governo Federal de que a exploração mineral trará riquezas para a região. “Não é verdade, pois a exploração não consegue mudar a dinâmica econômica, e o que acontece é a saída da riqueza natural, mantendo a população local pobre, porém, deixando-a doente, sem condições básicas de sobrevivência, sem educação, promovendo ainda mais a desigualdade social”.
Durante a viagem, Zeca Pataxó afirmou que foi acompanhado pela assessora do cantor Carlinhos Brown para a tradução, em suas conversas com as autoridades, e disse que cumpriu seu papel em ser porta-voz das famílias indígenas. “A partir de hoje teremos uma nova visão dos países de fora em relação aos povos indígenas”, aposta.