Fé em Jesus ou fé de Jesus?

Antonio Tamarri

Nessa época Natalina, faz parte da tradição dedicar um tempinho à espiritualidade. Seja na parte religiosa, seja na parte, digamos, ‘comercial’. Pois todos querem fazer algo voltado ao bem, à felicidade e à partilha, tanto através da troca de presentes quanto na convivência. Muito bom!

Torna-se oportuno, porém, para aqueles que seguem uma doutrina religiosa, refletir sobre o sentido da própria fé. Fé em qualquer divindade, santo, tradições, ritos, cultos, cerimônias, festas, celebrações...

O que estou fazendo? O que estou procurando? Porque neste período sinto a necessidade de fazer algo de diferente? Será que é para pedir bem mateiral, proteção, sorte ou ajuda? Ou para querer me identificar com os exemplos das divindades que celebro?

Cabe, portanto, mais uma pergunta: tenho fé em Jesus, no santo, no padroeiro... Ou tenho a fé de Jesus, a fé para fazer o que a divindade, o patrono, o santo, o orixá... faziam?

Se o aumento da minha prática religiosa é apenas a busca de mais proteção, mais sorte, mais felicidade... não tem nada de mal. Porém, pode se tornar uma forma de egoísmo, ou, perante pessoas que converso, um gesto com o qual ‘não sai do lugar’. Quero dizer que aquela pessoa não passa de normal pedinte de sempre, que se aproveita do Natal para ganhar favores.

Mas se a circunstância daquelas celebrações me induz a conhecer melhor a vida, os exemplos, a doutrina da divindade, ou o santo que celebramos, então, sim. A ocasião vai se tornar um momento de crescimento, de busca do melhor, esperança de maior compromisso com a vida e com o bem.

Fiquemos apenas nos exemplos de vida de Jesus: onde nasceu, onde foi encontrado quando se afastou dos pais, onde e com quem vivia, qual era a mensagem das palavras Dele, como tratava os amigos e até os inimigos...

E Maria, a mãe de Jesus? Após visita do anjo, que falou dos planos de Deus para Ela, quem foi visita-la? E em Canaã, quem viu e se preocupou com a falta do vinho? E debaixo da cruz, quando muitos dos discípulos tinham traído ou abandonado Jesus, quem ficou até fim?

A maior graça, benção, favor que deveríamos pedir a Deus, não só nas festas, mas em toda a vida, é a força e a vontade de ter a fé de Jesus. E a fé de Maria, a fé dos Santos e se esforçar para seguir o exemplo deles.

Gera tristeza ao ouvir o uso e abuso de frases como “se Deus quiser”; “Deus não quis”... especialmente quando são utilizadas para coisas fúteis, para não dizer nociva ao bem.

Não esqueçamos que, na narrativa da ressurreição de Lázaro, Jesus mandou os homens tirarem a pedra que fechava o sepulcro. Ele, capaz de fazer o milagre de chamar a vida um corpo morto, exigiu que fossem os homens a tirar a pedra.

A fé de Jesus pode nos ajudar a encarar a vida com responsabilidade. A fé em Jesus pode nos acostumar a não tomar os nossos compromissos e transformar as festas em eventos.


Antonio Tamarri é professor de História e Teologia - Foto: reprodução ireservir.com.br

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