O catador de histórias, espetáculo infanto-juvenil de A Patela Cia. de Teatro

Resenhas críticas – Porto EnCena – 2ª Edição

Nesta sexta-feira, dia 14 de agosto, a continuidade da Coluna Teatro, que tem por objetivo publicar - nesse primeiro momento - resenhas críticas dos espetáculos apresentados no Festival de Teatro Porto EnCena – 2ª Edição, traz a análise do espetáculo O Catador de Histórias, do A Patela Cia de Teatro, por Rafael dos Santos Santana, Valdiléia Pereira Guimarães e Alisson dos Santos Pereira, integrantes do Mútua e Keila Araújo, professora da LI Linguagens e coordenadora do Mútua - Grupo de Leitoras(es) que escrevem literatura. A Coluna é uma parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e o Jornal do Sol.

O catador de histórias, espetáculo infanto-juvenil de A Patela Cia. de Teatro

O elenco do espetáculo preocupa-se em ter a atenção e a adesão da plateia antes mesmo do início da apresentação, quando os artistas recebem a audiência na entrada do teatro. A proposta interativa já se estabelece ali, com a dinâmica que convida o espectador a escolher em qual lado da plateia deseja sentar: o lado de Robson Vieira ou o lado de Joane Bittencourt. A partir daí, o espetáculo O Catador de Histórias envolve todas as idades por meio da música e das histórias que encontram bons caminhos para iniciar: “quero começar mas não sei por onde, onde será que o começo se esconde?”. O trecho desta música, nacionalmente conhecida entre crianças e famílias, ativa as conexões de sentido da plateia de forma divertida e contribui para acolher a todos no clima da apresentação. 

A encenação se desenvolve como um musical interativo, quando os atos são costurados por canções performadas pelos artistas, enquanto uma banda composta pois dois músicos também está no palco, integrada às cenas e performances, cujos instrumentos participam do cenário e os figurinos completam a integração da sonoplastia como parte do elenco no palco e a proposta do espetáculo se constrói na articulação entre iluminação, som e atuação, todos os elementos em diálogo coerente com as cenas e histórias encontradas pelo caminho.

Robson veste bermudão cinza e camisa laranja; o Vovô usa um macacão cheio de bolsos; Joana veste saia verde, top lilás e um colar de zíper; o músico Du Txai veste uma jardineira com camisa em tom envelhecido; e Patrick San Kruger usa bermudão e meias coloridas. No centro do palco, o cenário é composto de forma experimental e combina elementos de viajantes contadores de histórias e objetos comuns dos espaços que as crianças criam para brincar: um tapete colorido, malas antigas de couro e uma caixa grande com tecido branco e embalagem de ovos, simulando uma televisão, ao lado esquerdo um banquinho de madeira, a qual em certos momentos Joana fica sentada, ao lado direito os músicos e os instrumentos, como bumbo, alaúde, afoxé, carrilhão de chaves,o ferrinho instrumental e o coquinho.

O personagem Vovô é o catador de histórias e surge em cena por meio de um boneco de fantoche quase do tamanho dos atores, manipulado por Robson Vieira. Nesse momento, os efeitos de luz e som capturam a atenção da plateia, anunciando o início das narrativas. Logo na primeira história, o conto do rei e sua roupa feita de um tecido invisível, destaca-se a criatividade dos elementos cênicos. Lenços se transformam em fantoches nas mãos do ator, dando vida aos acontecimentos. Em certos momentos, torna-se impossível desviar o olhar da apresentação.

No ato seguinte, há uma total mudança de planos e a ambientação sonora cria uma atmosfera marinha. O teatro mergulha na escuridão do mar, iluminado por tons de azul, transportando o público ao fundo do mar. O cenário revela soluções criativas, como o uso de embalagens de ovos recicladas. Essa narrativa aborda temas como a conscientização ambiental e os impactos da negligência com a vida marina e proposta de interação com o público ganha bastante materialidade. Os atores levam os bonecos de corda até a plateia, o polvo e a tartaruga continuam sendo projetados, desta vez bem perto das pessoas, ampliando a experiência sensorial.

A sequência do espetáculo segue priorizando o ritmo, a música e os jogos de linguagem. No conto da menina que desejava conhecer a menor história do mundo, a sonoplastia ganha ainda mais protagonismo: cada gesto, passo ou virada de página é acompanhado por um som específico. Talvez, em alguns momentos, a plateia deixe de acompanhar alguns detalhes das tramas internas, mas a escolha por combinar e, ao mesmo tempo, separar histórias no mesmo espetáculo permite uma experiência estética reveladora dos sentidos, da capacidade de visualizar os diferentes planos do real vivido e imaginado, e esses recursos revelam grande sensibilidade experimental e artística.

Todo o trabalho realizado no espaço do teatro revela um caráter atemporal, retomando as memórias de infância do público adulto com as cirandas cantadas e brincadeiras sem fim. Mas, para além desse sentimento nostálgico, temos uma dualidade com a infância e o fazer brincar, uma vez que as crianças estão se afastando cada vez mais cedo do brincar na atualidade.

No ato final, o Vovô Catador de Histórias retorna ao palco e encerra a apresentação com a frase: “os sonhos são primos das histórias”. A reflexão permanece, enquanto o espetáculo se despede com leveza e encanto. O Catador de Histórias se apresenta como uma experiência acessível a toda a família, mas também como uma proposta sensível para aqueles que buscam momentos de contemplação, riso e imaginação. Além disso, a peça apresenta ao público o trabalho da companhia A Patela, fundada por Robson Vieira, reafirmando a força do teatro como espaço de criação, encontro e reflexão.

Ficha técnica:

Dramaturgia: Robson Vieira e Deborah Mazochi

Elenco: Robson Vieira, Joane Bittencourt, Du Txai e Patrick San Kruger.

Direção Musical: Du Txai