Chegou a hora de transformar dificuldades em oportunidades

Publicado da edição 428 do Jornal do Sol

Estamos passando por uma situação grave. Entre as verdades e mentiras que escutamos sobre a pandemia do coronavírus, um meio para aliviar a tensão seria adotar a virtude da resiliência, fazer da quarentena uma oportunidade para mudar o nosso modo de viver, reduzir os vícios e até eliminá-los.

Não se trata apenas de reduzir álcool, fumo, drogas, alimentação errada, exagero de trabalho ou ócio. Resiliência é tirar o maior bem do maior mal. Muitos interpretam as restrições impostas pelas autoridades ou médicos como um castigo, um exagero, algo de inútil e nocivo à economia, lesivo à liberdade e até desproporcionado. Existem políticos vivenciando a ilusão de ganhos políticos com estas atitudes, ensaiando até revoltas, manifestações, contra as ordens e disposições das autoridades. Insanidade. Ao desconforto da doença, dificuldades pelas reduções do trabalho, lazer, compras, acrescentam os perigos de participar de atos ilegais, partidários, nocivos à cidadania.

Hora da resiliência

O meio mais eficaz para suportar a pressão das restrições, proibições, limitações não é a lamúria, sim, dar valores a elas, encará-las como se encaram as broncas justas dos pais, as receitas e orientações dos médicos, os conselhos dos professores. Resiliência é assumir estes corretivos como caminho para a solução. Se revoltar contra as medidas restritivas é imitar o doente que recusa os remédios.

A pandemia existe, está avançando de forma cada vez mais assustadora, no mundo inteiro, apresenta formas diferentes e mais perigosas; o maior perigo e erro é esperar a vacina sem mudar de vida, sem se livrar dos hábitos errados, pensando que uma vez vacinados, poderemos continuar a mesma forma de vida. Não podemos esquecer que será bem difícil vacinar toda a população do planeta em tempo útil para se livra dos contágios. Sempre vai existir um portador não identificado que vai transmitir o vírus a partir das pessoas mais frágeis, seja por natureza, seja por vícios.

O melhor modo de “aguardar” a vacina é melhorar a vida, a alimentação, o trabalho; ter relações boas com a própria família, bairro, cidade, entrar na luta contra a poluição de ar, água e terra, enfrentar as injustiças sociais, as mentiras dos políticos, do comércio, da propaganda enganosa, se livrar das tentações dos supermercados que oferecem tudo pronto, mas não garantem a saúde, pelo contrario. A melhor vacina é voltar a preparar a comida em casa, fugir dos lazeres em massa, trafego congestionado, viagem longas para umas férias “curtas” de sossego.

Resiliência e autossuficiência

Até continuarmos a depender da mídia fútil e mentirosa, do supermercado cotidiano até para uma simples sopa, depender dos outros para qualquer coisa, seremos sempre mais expostos ao contagio. É preciso se tornar proativos, voltar ao “faça você mesmo”, autossuficientes para sermos imunes dos tantos perigos de uma sociedade que não ensina a auto-suficiência, sem a dependência. Esta é a nova escravidão criada pelos 2.604 bilionários que existem na terra e que, de formas bem diferentes, mantêm a população no medo de não conseguir a agulha no braço, a vacina que permita a continuação de um sistema tão desigual e injusto. Quando formos todos mais autossuficientes, os bilionários resolverão repartir os bens, e quem sabe repartir a vida e a saúde.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

A vacina resolve? Mais ou menos!

Publicado da edição 427 do Jornal do Sol

Menos

Sendo este fármaco a esperança de todo mundo, vale a pena refletir. Se a vacina nos ajuda a criar o conceito e a prática da prevenção contra todas as infecções, se livrar da ameaça de ser contaminado, será um grande alívio. Mas devem continuar os cuidados com a higiene, pessoal, social e, é preciso acrescentar, também ecológico-global, pois as catástrofes ambientais agora matam talvez mais do que as epidemias e o aumento das temperaturas, a diminuição das florestas, o enquinamento do ar e das águas devem ser considerado um perigo iminente e bem maior de qualquer epidemia.

Se a vacinação em massa renovar todos os exageros que tínhamos antes das proibições, tais como as baladas, as aglomerações carnavalescas, lotação de praias, shopping, os megaeventos, estádios lotados com as baldarias...Antes, depois, fora e dentro dos recintos, sem nenhuma prevenção, com abuso, propagação exagerada de álcool, drogas e relações de qualquer tipo, a vacina resolve em parte os problemas da sociedade.

Mais

De verdade seria um absurdo se um vírus, que já matou milhões de pessoas, não tivesse a capacidade de nos ensinar algo de positivo para melhorar a vida. “Tem males que vem para o bem” diz um provérbio popular; só não aproveita quem não quer. A pandemia pode nos ensinar a viver uma vida mais simples e saudável, usar menos meios de transportes poluentes e valorizar a bike, as caminhadas; evitar as aglomerações seja de lazer como de comércio, privilegiando parques, praias menos afoladas.

Também podemos aprender o reuso das coisas, sem cair na tentação de “compra e joga fora”, assumir a tarefa de reaproveitar roupa usada, móveis fora da moda; reinventar meio de lazer, sem correr atrás dos grandes eventos, das promoções do turismo, sem cair nas armadilhas da propaganda enganosa que faz de tudo para te convencer a comprar determinado produto.

A pandemia limita o costume de comer fora. Ao invés de reclamar disto, eis a ocasião de se inventar cozinheiros, provar comidas caseiras, sobretudo reaproveitar as sobras. Vale a pena lembrar como Jesus, após ter saciado a fome de milhares de pessoas, mandou recolher o que tinha sobrado (Jo 6.12). O conselho e ordem “fiquem em casa” não deve ser interpretado com privação do direito de ir e vir, mas como compromisso de se perguntar “para onde eu vou”, “o que eu vou fazer”.

Ficou bem sintomático ver nas televisões ou redes sociais, tantas pessoas perambulando nas calçadas ou nas ruas com a cara de quem está apenas passeando; mas o pior quando faz isto sem usar a mascarinha, sem respeitar a distância. A cara destas pessoas inspira deboche, ar de superioridade ou muita ignorância e estupidez. Deveriam ser castigados, sobretudo aqueles políticos ou pessoas com poder público que desobedecem as normas emanadas pelas autoridades sanitárias. Estes têm a postura dos covardes, pois eles têm as condições, hospitais de primeira, remédios caros para saírem da doenças, enquanto o povo sequer consegue a UTI. A pandemia será útil quando ensinar a todos que sermos iguais é também termos os direitos iguais, sobretudo, quando se trata dos direitos à vida.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Quando a justiça não é igual para todos

Publicado da edição 425 do Jornal do Sol

Nos momentos de crise, as dificuldades aparecem mais. Neste período de pandemia, se tornaram evidentes as diferenças de comportamento entre ricos e pobres, políticos e eleitores, brancos e pretos.

Diversidade de tratamento médico hospitalar

Quando um “rico” pega o vírus, pode contar com os melhores hospitais, médicos e curas, enquanto o “pobre”, às vezes, nem tampão, nem lugar, nem leito, nem respirador consegue. Milhares de pessoas morreram por causa disso. Vergonhoso o esbanjamento de médicos que apareciam para comunicar as condições de saúde de Trump, uma verdadeira turma, enquanto para a maioria, nem enfermeira tinha para comunicar a morte do paciente. Patético ouvir políticos, saindo das clinicas mais famosas dizendo “quanto eu sofri”, após dois ou três dias de internação, enquanto teve gente que ficou imobilizado e com tratamento precário durante meses, saindo para o cemitério.

Diversidade de salário

O espetáculo mais triste é ver as filas na frente dos bancos. A maioria das pessoas perdeu o emprego, não tem como se sustentar e é obrigada a ficar horas e, às vezes, dias na frente de uma agência bancária para receber a esmola de R$ 300,00. Foram descobertos vereadores e funcionários publicos, empregados e bem pagos, buscar indevidamente este dinheirinho, descaso absurdo, verdadeiro roubo mesquinho e covarde que envergonha a sociedade, sobretudo porque a pena consiste apenas em devolver aquela ninharia.

Diversidade de comportamento

Justamente por contar com atendimento médico apropriado, assistimos quase diariamente a políticos graúdos e até governantes, burlarem a lei: se apresentam sem máscara, promovem eventos com muitas pessoas sem as devidas precauções, propagandeiam remédios sem comprovada eficácia, espalham mentiras e inverdades sobre o numero dos infectados. A pouca vergonha chegou ao ponto de falsificar os dados sobre os incêndios, invasões de terras, catástrofes ambientais, chegando ao absurdo de culpar os índios pelos desastres que assolam o nosso País.

Que governantes são estes que burlam as leis, criam mentiras deslavadas, governam de forma parcial e desonestas sem que sejam punidos. Também, que “justiça” é essa que gasta meses e anos para achar e punir “culpados dos anos passados” e absolve ladrões e corruptos atuais. A gente ouve autoridades declararem que a “ajuda emergencial” (sic?) custa muito para o estado enquanto os salários estratosféricos, as mordomias e os privilégios deles, sequer são minimamente questionados.

E o voto? Os novos “servidores”, será que vão mudar?

Esta crise, esta pandemia, esta recessão, vieram para ficar... Até o povo não assumir o papel de dono da administração pública, vivenciando a verdadeira democracia (governo do povo); e parar de se considerar uma “aristocracia” (organização social e política em que o governo é monopolizado por uma classe privilegiada - Dicionário Aurélio). Só mudando esta classe de governantes, podemos esperar mudar a nossa sociedade. As eleições são para isto, ao perder a oportunidade, perdermos o direito de reclamar.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Acabou?! - Um conto pré-eleitoral

Publicado da edição 426 do Jornal do Sol

No bairro do Cambolo, todo mundo lembra ainda da “Escola Libertos” e diversos ex-alunos vieram visitar os velhos diretores, para entregar os “santinhos” dos candidatos. Eu fingi estranheza:

- Queridos, eu sou bastante idoso, mas tenho memória boa. Vocês acham que preciso de “santinho” para me lembrar em quem votar?

- Não, diretor... É para falar dos velhos tempos e os senhores podem entregar estes santinhos para os vizinhos e conhecidos. O nosso candidato é...

- Não precisa me dizer nada. Eu vou dizer logo pra quem votarei. Votarei em quem escrever no programa dele como vereador ou prefeito o que ele mesmo pode realmente fazer.

- Nos diga diretor...diga!

- Apenas três coisas, pois todas as promessas de campanha (educação, saúde, saneamento básico) dependem da aprovação da câmara; as que entrarem na pauta...

- Mas diga, professor, o que um servidor pode fazer, sem depender do voto dos demais?

- Ele pode dizer (e seria obrigação que todos os servidores prestassem conta): quanto vai ganhar em salário e outras contribuições; quantos e quem serão os assessores dele, quanto vão ganhar, e quais funções vão ter; em terceiro lugar, publicar a cada mês, na fachada da câmara, quanto entrou e saiu das contas públicas.

- Mas, diretor... O tempo passou rápido, temos que visitar muita gente...Foi um prazer revê-lo!

- Ei, quase gritei atrás deles, e o santinho!? Fugiram!!!

Até os Bolsonaros prestam contas

Na revista Super Interessante de setembro 2020, na pagina 67, tem esta pequena notícia, não escreveram quem captou a fonte e de onde, mas diz o seguinte:

“R$ 65,2 milhões. É o quanto os Bolsonaros já pagaram, em salários, para parentes empregados em seus gabinetes.”

Todo mundo sabe que a procura de se tornar candidato em qualquer função publica é, sobretudo um investimento financeiro. O que deixa estarrecidos é que o investimento para “ganhar” uma eleição é bancado pelo estado. Quer dizer que é a sociedade que paga os gastos da campanha e depois sequer sabe quantos os “financiados” por ela ganham, seja na campanha ou no cumprimento das funções. Nem precisa dizer que os salários deles são muito, mas muito acima do que ganha a maioria dos “financiadores”. A pandemia do coronavírus está “reduzindo”, até acabando com muitos orçamentos familiares, mas este “encolhimento” da economia não atinge os funcionários, sobretudo os de alto escalão.

Acabaram a farra da propaganda política, os comícios, a vergonha ilegal dos carros de som, das contratações avulsas, da troca de casacos, de partido, de aliados das promessas espatafúrdias, dos conchavos, alianças e rupturas... Agora iniciou a era do silencio e da repartição do bolo, inicia-se a era em que “os servidores” agem na surdina para “recuperar” o que não gastaram e realizar o mais extravagante negócio onde o dono (o povo) é quem paga, e o servidor é quem embolsa. Se o povo engolir ainda esta situação, as eleições teriam passadas em vão. E preciso superar a fase burlesca das eleições e entrar na fase certa em que a sociedade assume a direção das causas públicas. Neste sentido, as eleições não acabaram. Sim, começam agora, com o povo que assume o seu papel de promotor e fiscalizador do bem público.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia

Prosperidade: virtude e pecado

Publicado da edição 424 do Jornal do Sol

Os tempos de crise são os mais favoráveis para “sonhar melhoras”. O “corona” vírus é o exemplo mais recente; mas também eleições, crise econômica, desastres ambientais e certas religiões estão adotando um discurso pelo menos ambíguo, mentiroso, para não dizer decididamente falso.

Teologia da prosperidade

Contrariando o que ensina sobre riqueza, em numerosas narrativas bíblicas, de forma mais contundente nos capítulos do Evangelho segundo Mateus cap. 6 e Lucas 12,22-34, existem diversos religiosos que esqueceram a frase-chave sobre o acúmulo de bens, que até a internet relata de forma bem exaustiva:

Quod superest date pauperibus (o que se encontra em cima, doem para os pobres). Tem biblistas divergindo se o “em cima” se refere à mesa ou a dispensa. Mas esta interpretação não deixa de afirmar que quem não reparte os bens com os mais necessitados não é evangélico.  O que dizer então de quem usa os privilégios da religião para acumular riquezas para própria pessoa ou família. Pior, quem usa ofertas para lavar dinheiro, sonegar impostos, favorecer a corrupção. Se questionados, chegam a mentir prometendo a prosperidade dos fieis na outra vida. O abuso de nomes sagrados, promessas espirituais, recompensas eternas cheiram mesmo a blasfêmia. São pecados gravíssimos.

Política da prosperidade

Todo mundo admite que a propaganda política, a prática de promessas sem fundamento, a apresentação de programas falsos são verdadeiras mentiras ridículas e absurdas. Mesmo assim existem muitas pessoas que gostam de ser enganadas e continuam votando em quem provou que não tem capacidade nem vontade de servir o povo, sim de se servir. O histórico de vida e atitudes dos candidatos, não estão sendo considerados. Por causa desta superficialidade, teremos sempre mais administrações corruptas. Valeria a pena analisar as crises econômica, ecológica, social, no cuidado com a educação, a saúde, constatando que o acúmulo das riquezas, a custo do empobrecimento da população pobre, aumenta cada vez mais enquanto o planeta terra se degrada de maneira irreversível. Que tal trocar ideias sobre o que significa mesmo prosperidade?

O caminho da prosperidade

Em primeiro lugar, próspero significa também simples, sincero, favorável, propício, ditoso, feliz. Para ser isto é preciso voltar a uma vida mais frugal. Não precisa se exibir tomando cerveja nos bares ou lugares com tantas pessoas, em praias super badaladas. Cerveja, comida, tira-gostos são gostosos também quando consumidos na própria casa, talvez com alguns parentes ou amigos, vizinhos. Seria bom ocupar o tempo de pandemia tendo uma hortinha no quintal, flores até em paredes ou quartos da casa, fazer e até inventar receitas novas na cozinha.  Fundamental é aceitar estas atividades não como castigo, falta de sorte, sim como uma nova maneira de viver, se relacionar, pois quando conseguirmos viver de forma natural, descobriremos que “as coisas mais simples são as mais belas”, como dizia São Francisco de Assis.


Antônio Tamarri é professor de História e Teologia